Tradução
sábado, 4 de abril de 2020
Ser decente é ser radical (e vice-versa)
A Peste do Covid levou-me a reler A Peste do Camus porque a força do livro está em que os nossos dilemas atuais funcionam como como se fosse a ficção que confirma e a realidade, esta espelhasse o livro. Afinal o que o século XX nos deixou com mais glória e vigor literário foram grandes romances distópicos: 1984 e a Peste são exemplos melhores a que se juntam as outras grandes narrativas de declínio , vigilância e limites do humano escritas por Mann, Kafka , Huxley e Primo Levi. Quando o humanismo começou a revelar os seus impasses os romances tornaram-se mais pessoais e centrados na tragédia do homem vulgar: primeiro os existencialistas, depois o Nouveau Romans, depois passo a passo, Jonhatan Fraser, Foster Wallace, Phillip Roth, Karl Ove Knausgard ou Gonçalo M. Tavares. foram exemplos muito diversos deste olhar : a luta passa a ser viver num mundo sem excesso de ilusões, uma vez desfeitas as certezas sobre a bondade das causas. É nesse sentido que a Peste de Camus retoma a sua grandeza: apesar de sabemos que ela (A Pestre) e a sua pesada solidão voltam sempre, continuamos comprometido, melhor impelidos a tentar viver de um modo diferente das ratazanas. O médico vai continuar a visitar infectados e a construir com paciência a sua rede. Talvez seja necessário pensarmos num deus de pequenas e de pequenos gestos: importamo-nos com a vida e minimizar as indecências que a ameaçam: É preciso um esforço muito grande para mudar um bocadinho.
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