quarta-feira, 4 de julho de 2012
Socialismo fora da gaveta, já !? É mesmo?
O "I" através da sua jornalista Ana Sá Lopes vislumbrou uma geração que quer tirar o socialismo da gaveta.
Já tinha reparado nela. Por cepticismo metódico, limito-me a assinalar a sequência de gerações similares que apresentaram a mesma proposta; a dificuldade da tarefa e a incógnita que consiste em saber se se a gaveta ainda abre em condições. Por outro lado, em abono da geração assinalo a sua coragem e competência que bem precisa já que qualquer tentativa de enterrar esse híbrido construído por Giddens e Blair exige uma enorme lucidez . Também merece o meu mais sincero mas creio que inútil apoio.
Eis a imagem de um tempo antes da Terceira Coisa Blairiana a quem Tony Judt chamou "o gnomo no meio do jardim". Não eram todos perfeitos nem a nostalgia ´´e boa companhia . Mas os que estão activos mostra mais saber que os sucessores. E os que cumpriram o seu tempo ( Brandt) estão activos na nossa memória.
terça-feira, 3 de julho de 2012
Num recente conclave partidário um dirigente falou de uma eleição em que os boletins de voto de uma determinada secção eleitoral (para um acto ao qual se apresentava uma lista única) eram diferentes dos restantes boletins de outras secções de voto tendo, no seu caso específico, à frente do nome da lista a sufrágio, um «sim »e um «não» como se de referendo se tratasse. Aliás, não sei bem se ouvi ou se apenas me pareceu ouvir. Diziam os entendidos que o coordenador da secção onde tal decorrera era certo destacado dirigente nacional. E até se acrescentava que charters de vontantes tinham ido a uma eleição em troca da entrega de um influente comissariado nem mais nem menos que um comissariado nacional.
Ora , isto não pode ser verdade porque se fosse... já viram o que era se fosse?....Com certeza, já alguém havia desmentido o denunciante ou denunciado o tratante do comissário. Mas são tudo, como diz o outro , hipóteses académicas como hipotéticas são as habilitações académicas do Relvas. Se tudo isso fosse verdade o dirigente seria um comissário tão legítimo como Relvas seria cientista politico legítimo. Mas, como não deve, não pode ser verdade, pode antes ser uma parábola interessante sobre a fraternidade e a «democracia», a «transparência» e o «socialismo» E sobre o motivo pelo qual as diferenças entre famílias politicas se obliteram e tornam irrelevantes: a adopção de um gesto cínico em que se substitui um cromo por outro. Será?Não pode ser...
Ora , isto não pode ser verdade porque se fosse... já viram o que era se fosse?....Com certeza, já alguém havia desmentido o denunciante ou denunciado o tratante do comissário. Mas são tudo, como diz o outro , hipóteses académicas como hipotéticas são as habilitações académicas do Relvas. Se tudo isso fosse verdade o dirigente seria um comissário tão legítimo como Relvas seria cientista politico legítimo. Mas, como não deve, não pode ser verdade, pode antes ser uma parábola interessante sobre a fraternidade e a «democracia», a «transparência» e o «socialismo» E sobre o motivo pelo qual as diferenças entre famílias politicas se obliteram e tornam irrelevantes: a adopção de um gesto cínico em que se substitui um cromo por outro. Será?Não pode ser...
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Estranha forma de politica
Não se pode dizer que a «não candidatura » de Miguel Nascimento e a ausência de uma lista que seja afeta à solução autárquica preconizada em torno da CPC da Covilhã do PS seja uma saída airosa. não provocou um terramoto nem grandes laivos de admiração. Claro que os defensores da candidatura de Carlos Casteleiro podem não desistir e apresentar-se às primárias ou até numa hipótese mais apocalíptica tentarem desencadear movimentos em torno de uma candidatura independente,. Porém, é um cenário estranho, pouco racional e com escassa probabilidade de sucesso. Alguns analistas afinam a tese da vaga de fundo. Todavia, não se augura a existência de comoção intensa. Não consta ter havido desmaios públicos na calçada. Foi das jogadas politicas mais arriscadas que vi, concedo, mas tinha escrito o seu destino desde a hora em que nasceu numa longínqua reunião em que poucos votaram contra. Pelas minhas contas, os alfaiates não vão dar mãos a medir e muitos virão relatar os seus feitos de resistência a uma candidatura anunciada, votada e levada por diante. Haverá muito a contar sobre a brava história dos silêncios,dos anónimos e até dos que escreveram a dizer que era melhor não dizer nada.
Queixam-se alguns dos sindicatos de voto, do acréscimo súbito de militantes. Nesse sentido, a confirmar-se fundamento a essas queixas, não podem lamentar-se: inventaram o método, deram-no a conhecer e deram a saber aos seus adversários as malhas com que o poder se tece. Não contavam enredar-se na própria teia.
Não creio, todavia, que a saga permaneça aqui. Este silêncio e tranquilidade precede a tempestade. Ainda falta anunciar uma decisão.
Claro que falta acrescentar um pós-scriptum: estas soluções feitas a somar quem tem mais qualidades de cacique vão terminar mal, porque isso não chega.
Queixam-se alguns dos sindicatos de voto, do acréscimo súbito de militantes. Nesse sentido, a confirmar-se fundamento a essas queixas, não podem lamentar-se: inventaram o método, deram-no a conhecer e deram a saber aos seus adversários as malhas com que o poder se tece. Não contavam enredar-se na própria teia.
Não creio, todavia, que a saga permaneça aqui. Este silêncio e tranquilidade precede a tempestade. Ainda falta anunciar uma decisão.
Claro que falta acrescentar um pós-scriptum: estas soluções feitas a somar quem tem mais qualidades de cacique vão terminar mal, porque isso não chega.
terça-feira, 22 de maio de 2012
A não candidatura
Surpresa ou talvez não
A politica abunda em revezes. Não tenho em paciência nem formação para saltar em cima de adversários que parecem ser vítimas de tais atribulações. A não-recandidatura é o corolário lógico de erros de avaliação dos protagonistas. Anunciaram-se «não anúncios», apresentaram-se »não candidaturas». Aguardam-se, com serenidade, os desenvolvimentos.
sábado, 19 de maio de 2012
... depois do caso "Público-Relvas" a margem de manobra estreitou-se
Comunicado do Conselho de Redação do Publico
A verdade é que a presunção de inocência não iliba este Ministro de uma forte suspeita politica, que não dá muita margem de manobra. António Capucho já explicou.
A verdade é que a presunção de inocência não iliba este Ministro de uma forte suspeita politica, que não dá muita margem de manobra. António Capucho já explicou.
Ministro e jornalistas
Não simpatizo com o político em causa mas a história que circula sobre Miguel Relvas é tão má que me parece demasiado irracional para um profissional da politica. Porém, a questão subjectiva ( o que eu possa achar) é menor. Há dois níveis de análise complementares a) presunção de inocência; b) a a responsabilidade politica. Logo, o Ministro devia explicar de foma clara. Também não ficava nada mal à direção do Público esclarecer algo nomeadamente as diferenças de critérios entre o Conselho de Redação e a Direção. E há uma pergunta que me queima os lábios: e se fosse José Sócrates? Teria direito a uma apreciação racional e ponderada?
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Política às claras
Real Clear Politics é um portal de notícias muito focado nas eleições americanas e que recolhe artigos de muitos lados. Um manual para acompanhar tendências e para conhecer uma cobertura noticiosa de campanha.
Eis as últimas sondagens. e a previsão do colégio eleitoral que elegerá o Presidente.
Já o site Politico (tal e qual como se chama) é um belo exemplo da cobertura que alguns chama, horse races frame. Isso mesmo "enquadramento corrida de cavalos". Os truques, as análises, o spin, os argumentos são sob o ponto de vista de quem ganhou e perdeu.
Creio que um site destes mereceria ser lançado na Covilhã. Quais são os mandantes a que se referia um recente politico confrontado com um revez interno? Com quem se não senta ele na mesa? Que pensará Francisco Castelo Branco da reação do seu companheiro de partido? Quem morreu a pensar?
Eis as últimas sondagens. e a previsão do colégio eleitoral que elegerá o Presidente.
Já o site Politico (tal e qual como se chama) é um belo exemplo da cobertura que alguns chama, horse races frame. Isso mesmo "enquadramento corrida de cavalos". Os truques, as análises, o spin, os argumentos são sob o ponto de vista de quem ganhou e perdeu.
Creio que um site destes mereceria ser lançado na Covilhã. Quais são os mandantes a que se referia um recente politico confrontado com um revez interno? Com quem se não senta ele na mesa? Que pensará Francisco Castelo Branco da reação do seu companheiro de partido? Quem morreu a pensar?
terça-feira, 15 de maio de 2012
A humilhação
Há quem suponha que a inteligência significa elitismo:
Cito (e subscrevo grande parte ) José Pacheco Pereira.
(O Pingo Doce)"Procedeu como se no meio
de um ajuntamento qualquer, de "manifestação", seja pelo que for,
atirasse um molho de moedas para mostrar que era fácil levar as pessoas a andar
pelo chão a apanhá-las, quebrando o ajuntamento. As pessoas ficam melhor com o
dinheiro que apanharam, mas sabem muito bem que isso significou andar de gatas
pelo chão e isto humilha-as.
O modo como se escolheu o 1.º de Maio, o mais
politizado dos feriados portugueses, também o mais "social" dos
feriados portugueses, o único que está associado a uma simbologia de luta e de
reivindicação dos trabalhadores, para fazer isto tem um significado que não
pode ser ignorado. O modo como as coisas correram não foi muito diferente de
abrir promoções de 50% na carne na Sexta-feira Santa, o que naturalmente seria
visto como uma provocação desnecessária aos crentes que aceitam as obrigações
dietéticas da sua religião.
Para além desta
desnecessária provocação, pode até haver quem pense, entre os responsáveis
pelos descontos de 50%, que se tratou apenas de um acto altruísta em tempos de
crise, mas então não mediram a amplitude da necessidade que fez a corrida
tumultuosa às prateleiras, ajudando a criar o primeiro "assalto" a
mercearias do pós-25 de Abril, émulos dos que ocorreram nos anos de 1917-9,
onde tais assaltos foram habituais no fim da Grande Guerra. Os pobres que correram lá
pelos 50% para comprar "géneros de primeira necessidade", com o parco
dinheiro do mês de Abril ainda fresco no início de Maio, não se escondem, nem
têm vergonha, que é um produto que nunca tiveram na vida, um produto para os
ricos que têm espaço nas casas, que não vivem uns em cima dos outros. Por isso,
não têm qualquer problema em exibir as suas compras e a sua rudeza de
"canalha". Vi com atenção muitas fotografias e filmes do
"assalto" aos supermercados e lá estão muitos deles, os pobres de
sempre, cuja roupa, modos e postura são imediatamente reconhecíveis. Muitas
mulheres, barulhentas e "desavergonhadas", com a falta de compostura
que caracteriza sempre as "classes baixas", e que muito horroriza
"os de cima". Os mais silenciosos entre esses pobres eram negros dos
subúrbios e dos bairros sociais, emigrantes brasileiros, e ciganas, com a sua
mole de filhos e olhar desafiador.Estes pobres consomem.
Isto pelos vistos é uma surpresa para alguns meninos finos, que acham que ser
pobre é viver numa coluna de estatística e para quem aparecerem aos magotes num
supermercado a comprar fraldas mostra que "afinal" a crise não é
assim tão funda ou então que há subsídios a mais. As televisões, cujos
repórteres estão ali como em Marte, são alheios ao sentido do que se está a
passar, porque também não é essa a sua "condição" social. Faziam
todas as perguntas erradas, fascinados pelos incidentes e pelo tumulto, pelo
bom espectáculo televisivo. Tentavam obter declarações sobre se "tinha
valido a pena" estar três, quatro, cinco, seis horas a arrastar pilhas de
compras sem carrinhos até uma caixa onde esperavam séculos para pagar, e nem
sequer percebiam por que razão algumas pessoas mais bem vestidas fugiam de dar
a cara e se escapavam das câmaras, cabisbaixas. Essas pessoas tinham
vergonha de exporem a sua necessidade, porque só se espera seis horas numa
compra".
A Decisão
Valha-nos algo, Deus ou o bom senso ou o humor.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Poder Local: Mudanças de Paradigma
É preciso conhecer o novo quadro económico em que se movimentam as autarquias e as competências que poderá desempenhar. Será necessário discutir a reorganização administrativa. Será necessário encarar a eventual redução de dirigentes e quadros autárquicos.
Digam alguma coisa de sério que não faça rir e não passe pela pura eliminação da despesa (tarefa para os contabilistas menos imaginativos).
Eis alguns extractos do Livro Verde da Reorganização Administrativa (Quem quiser pode ler aqui) :
- A Reforma da Administração Local terá quatro eixos de actuação: o Sector Empresarial
Local, a Organização do Território, a Gestão Municipal, Intermunicipal e o
Financiamento e a Democracia Local.
-É essencial caminhar para orçamentos de base zero, ganhar escala de actuação na
gestão corrente e nos investimentos, mudar o modelo de governação autárquica,
promovendo mais transparência, simplificar as estruturas organizacionais, promover a
coesão territorial, reduzir a despesa pública e melhorar a vida dos cidadãos.
-Julga-se imprescindível rever o regime de financiamento das autarquias locais e, por isso, será
constituído um grupo de trabalho para rever a Lei das Finanças Locais.
Elaborar um diagnóstico sobre o número de entidades que compõem o
actual Sector Empresarial Local (SEL), promovendo a redução do número
de entidades e adequando o Sector à sua verdadeira missão estratégica,
de acordo com a realidade local e as suas necessidades específicas;
- ealizar uma análise do actual mapa administrativo, promovendo a
redução do actual número de Freguesias (....)
Reformatar as competências dos diferentes níveis das Divisões
Administrativas, estabelecendo novos quadros de actuação no âmbito
dos Municípios, CIM e outras Estruturas Associativas, procurando
reforçar atribuições e competências e promovendo a eficiência da gestão
pública com o intuito de gerar economias de escala no seu
funcionamento;
Analisar e regular os diferentes níveis e tipologias de Associativismo
Municipal, criados ao longo de 20 anos, no pressuposto de que não
deverão sobrepor-se nem repetir-se nas suas funções.
Promover o debate relativo a um novo enquadramento legal autárquico:
Lei Eleitoral para os Órgãos das Autarquias Locais;
Eleitos Locais; Formação e Composição dos Executivos;
Membros de Apoio aos Executivos;
Estruturas Orgânicas e Dirigentes Municipais;
Competências dos Executivos Municipais;
Competências das Assembleias Municipais;
Atribuições e Competências das Freguesias.
Como não sou ceguinho vejo que o documento é suficientemente lato para muitas interpretações tendo algumas orientações com que concordo. Talvez seja uma oportunidade para acabar com populismos desvairados e outros isaltismos felgueirenses ou similares e, nem assim tão distantes. Por outro lado, suspeito que regras novas não se fazem com gente velha. Não estou afalar da idade mas dos víciozinhos. Se a estes desafios legislativos juntarmos a escassez de transferências, a ausência de crédito e a gestão do curto prazo das dívidas aos credores, que vai sobrar?
O Provedor do Cidadão , especialmente, o Orçamento Participativo, poderão ser boas práticas: envolver os cidadãos na gestão dos recursos em tempo de crise - é o tema de um Livro de Tiago Peixoto, meu amigo brasileiro que asessoreia o Banco Mundial. Sustentabilidade, capacitação, novas práticas associativas. Porém, como acrescenta mudanças não se fazem com velhos hábitos nem com atores desinteressados da mesma. Será que os Partidos já se aperceberam disso: ou , como dizia Lampeduza, "é preciso mudar um bocadinho para que tudo fique na mesma?".
Digam alguma coisa de sério que não faça rir e não passe pela pura eliminação da despesa (tarefa para os contabilistas menos imaginativos).
Eis alguns extractos do Livro Verde da Reorganização Administrativa (Quem quiser pode ler aqui) :
- A Reforma da Administração Local terá quatro eixos de actuação: o Sector Empresarial
Local, a Organização do Território, a Gestão Municipal, Intermunicipal e o
Financiamento e a Democracia Local.
-É essencial caminhar para orçamentos de base zero, ganhar escala de actuação na
gestão corrente e nos investimentos, mudar o modelo de governação autárquica,
promovendo mais transparência, simplificar as estruturas organizacionais, promover a
coesão territorial, reduzir a despesa pública e melhorar a vida dos cidadãos.
-Julga-se imprescindível rever o regime de financiamento das autarquias locais e, por isso, será
constituído um grupo de trabalho para rever a Lei das Finanças Locais.
Elaborar um diagnóstico sobre o número de entidades que compõem o
actual Sector Empresarial Local (SEL), promovendo a redução do número
de entidades e adequando o Sector à sua verdadeira missão estratégica,
de acordo com a realidade local e as suas necessidades específicas;
- ealizar uma análise do actual mapa administrativo, promovendo a
redução do actual número de Freguesias (....)
Reformatar as competências dos diferentes níveis das Divisões
Administrativas, estabelecendo novos quadros de actuação no âmbito
dos Municípios, CIM e outras Estruturas Associativas, procurando
reforçar atribuições e competências e promovendo a eficiência da gestão
pública com o intuito de gerar economias de escala no seu
funcionamento;
Analisar e regular os diferentes níveis e tipologias de Associativismo
Municipal, criados ao longo de 20 anos, no pressuposto de que não
deverão sobrepor-se nem repetir-se nas suas funções.
Promover o debate relativo a um novo enquadramento legal autárquico:
Lei Eleitoral para os Órgãos das Autarquias Locais;
Eleitos Locais; Formação e Composição dos Executivos;
Membros de Apoio aos Executivos;
Estruturas Orgânicas e Dirigentes Municipais;
Competências dos Executivos Municipais;
Competências das Assembleias Municipais;
Atribuições e Competências das Freguesias.
Como não sou ceguinho vejo que o documento é suficientemente lato para muitas interpretações tendo algumas orientações com que concordo. Talvez seja uma oportunidade para acabar com populismos desvairados e outros isaltismos felgueirenses ou similares e, nem assim tão distantes. Por outro lado, suspeito que regras novas não se fazem com gente velha. Não estou afalar da idade mas dos víciozinhos. Se a estes desafios legislativos juntarmos a escassez de transferências, a ausência de crédito e a gestão do curto prazo das dívidas aos credores, que vai sobrar?
O Provedor do Cidadão , especialmente, o Orçamento Participativo, poderão ser boas práticas: envolver os cidadãos na gestão dos recursos em tempo de crise - é o tema de um Livro de Tiago Peixoto, meu amigo brasileiro que asessoreia o Banco Mundial. Sustentabilidade, capacitação, novas práticas associativas. Porém, como acrescenta mudanças não se fazem com velhos hábitos nem com atores desinteressados da mesma. Será que os Partidos já se aperceberam disso: ou , como dizia Lampeduza, "é preciso mudar um bocadinho para que tudo fique na mesma?".
Comissão Política do PS reúne Hoje. Será desta? Claro que não!
A Comissão Politica do Partido Socialista da Covilhã vai reunir hoje. O conclave dos atuais dirigentes do PS realiza-se no Teixoso, secção considerada afeta maioritariamente à solução eleitoral proposta pelo Presidente da Concelhia. Há cerca de dois anos, a Comissão Politica de Miguel Nascimento convidou um médico covilhanense que se mostrou disponível para pensar. Desde o início das cogitações passaram cerca de dois anos. Quando do convite faltavam três anos para as eleições autárquicas e o gesto suscitou as maiores reservas de vários militantes por ser considerado precipitado.
A recente candidatura de Jose Armando Serra dos Reis à frente da lista opositora à facção de Miguel Nascimento pode levar os apoiantes deste a reunirem em conclave para escutarem da boca do candidato outrora indigitado a sua aceitação. Porém, quer o convite quer a aceitação mais não significam do que uma pré candidatura. O PS da Covilhã vai a eleições no início de Junho para eleger nova Comissão Politica que, dependendo da composição, pode ou não validar o convite e até remeter para primárias a escolha do candidato. Logo, a verificar-se a aceitação do convite, este poderá não passar de um ato simbólico. Com o PS à boca da Câmara, prevê- se uma animada disputa eleitoral, pelo que ainda está longe a escolha do candidato à presidência da autarquia.
Tem-se discutido muito pouco a natureza destas eleições. A confirmarem-se a realização de primárias, a alteração da legislação eleitoral e a repartição da Comissão Politica entre diversas fidelidades, trata-se de um novo quadro eleitoral. Sem Carlos Pinto no horizonte e com os seus delfins mais distantes do poder interno, o cenário está consideravelmente modificado.
Tem-se discutido muito pouco a natureza destas eleições. A confirmarem-se a realização de primárias, a alteração da legislação eleitoral e a repartição da Comissão Politica entre diversas fidelidades, trata-se de um novo quadro eleitoral. Sem Carlos Pinto no horizonte e com os seus delfins mais distantes do poder interno, o cenário está consideravelmente modificado.
Como apoiante da lista de Serra dos Reis, espero que a vertigem pela disputa dos sindicatos de voto não cale a disputa pela alma da Covilhã. Se o critério de qualidade for apenas a capacidade de angariar militantes, quer PS quer PSD esbroam-se numa disputa sem sentido, somando muita disputa com poucas ideias. Será necessário conhecer o novo quadro económico em que se movimentam as autarquias e as competências que poderá desempenhar. Será necessário discutir a reorganização administrativa. Será necessário encarar a eventual redução de dirigentes e quadros autárquicos. Claro, como é costume, isso fica para depois.
domingo, 13 de maio de 2012
MERKL: DERROTA HISTÓRICA EM ELEIÇÕES LOCAIS
Contra todas as previsões que incluíam a descida do SPD e dos Verdes e a possibilidade de uma grande coligação, SPD/CSU, os partidos da esquerda tradicional saem reforçados na Renânia do Norte-Westfália enquando Die Linke (esquerda ligada a Oskar Lafontaine) desce e liberais sobem. Quem leva uma tareia monumental é Angela Merkel.
Até o Jornal de Negócios que geralmente evidencia alguma simpatia para com a liderança germânica não escapou a evidência da brutal punição infligida à Chanceler. A expressão «derrota histórica» é o sinónimo elegante que os jornais utilizam para falar de "tareia monumental".
Dere forma algo surpreendente, Manuel Monteiro, no termo do seu Doutoramento em Ciência Politica por sua vez cita Jurgen Habermas (que considera um grande filósofo marxista)em entrevista ao Público para constatar o óbvio: o défice democrático que acompanhou o processo europeu.
Habermas contra todas as previsões que apontavam para um declínio de influência - graças a muito erros de avaliação e de reflexão - está a obter o reconhecimento tardio das suas teses sobre o constitucionalismo europeu. : o ensaio sobre a constituição da Europa, cujas ideias básicas podem ser lidas aqui.. Porém, também surgem novas categorias de análise. O pensamento neo-kantiano parece, apesar de tudo escasso, quando se advinham processos de radicalização.
Apesar de tudo, parece que será preciso contar com os alemães para resolver os problemas criados pela ...Alemanha. Tudo o resto será pouco sensato.
Farromba descarta PSD
Ao Portal da Covilhã, Pedro Farromba diz que "não tem intenção de sercandidato à presidência do PSD da Covilhã “a não ser que as circunstâncias o imponham”.
Mudanças
O improvável transformou-se em realidade. Francisco Castelo Branco é o
novo presidente da concelhia da Covilhã do PSD. O candidato da lista B obteve
97 votos dos 164 militantes que votaram. A lista A, liderada
por Bernardino Gata recolheu 64 votos. Registaram ainda 2 votos em branco e um
nulo, num universo de 191 militantes. Vantagens da democracia: o imprevisto e a mudança. Há um suave perfume a mudança de «regime».
A propósito de mudança, preparara-se o o PS para tentar fazer a sua própria. Sob o lema "Mais PS/Pela Covilhã", José Armando Serra dos Reis apresentou a candidatura à presidência da Comissão Política Concelhia, cujo ato eleitoral está marcado para o próximo dia 1 de Junho.
A propósito de mudança, preparara-se o o PS para tentar fazer a sua própria. Sob o lema "Mais PS/Pela Covilhã", José Armando Serra dos Reis apresentou a candidatura à presidência da Comissão Política Concelhia, cujo ato eleitoral está marcado para o próximo dia 1 de Junho.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
HUGO
É preciso, por vezes, meia dúzia de anos para sabermos se um livro ou filme eram uma obra-prima. Há quem diga que Hugo é uma obra-prima. Não vou tão longe. Tem uma direcção artística excelente, um uso extraordinário da tecnologia de 3D, excelentes actores em papéis secundários e principais, tem um argumento com alguns buracos desculpáveis e tem, sobretudo, um genuíno amor ao cinema. Para além das referências à cultura popular (de Jules Verne ao Hallo, Hallo, a fantática série inglesa sobre a resistência francesa), inclui, momentos momentos memoráveis nos estúdios de Meliés, delirantes, divertidos e nostálgicos. É um filme «feito para crianças» que arrasa a maior parte dos filmes «feitos para adultos». Apesar de todos os defeitos que lhe possam encontrar, não percam. É muito mais do que se pode dizer sobre as grandes produções americanas nos dias de hoje.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Edgar Hoover: o filme
Fui ver outra biografia (biopic como dizem) de J. Edgar Hoover. O filme é melhor do que o biopic de Tatcher , o personagem é muito mais detestável. A direcção do Clint Eastwood e o excelente argumento ajudam a olhar para a América do século XX e para a história triste deste personagem demasiado humano, demasiado mesquinho. Hoover quis fazer uma lenda sobre si próprio enquanto alimentava uma carreira de escutas secretas , devassas da vida privada e perseguição de todos os que lhe pudessem fazer sombra. A história da fundação do FBI exibe os seis lados mais sombrios inclusive principlamente no plano político. Intelectualmente honesto até porque o realizador tem tendências conservadoras. As interpretações não são comparáveis às de Meryl Streep mas têm um nível bastante bom. Leonardo DiCaprio já é muito mais do que uma carinha laroca como era no Titanic. E está bem rodeado.
domingo, 12 de fevereiro de 2012

Três grandes livros sobre a Guerra Civil de Espanha. Três escritores viveram os acontecimentos de modos diferentes.
Orwell era um homem de esquerda que desconfiava dos comunistas e descreve com grande rigor intelectual as divisões fraticidas entre as força que lutavam do lado republicano. A sua apreciação das atitudes do PCE já adivinham 1984 e Animal's Farm.
Marlaux era um comunista que trabalhava como Komintern e admirava a disciplina partidária dos comunistas.Mais tarde foi Ministro de de Gaulle.
Bernanos era integralista, monárquico, leitor de Maurras, ideólogo da extrema - direita francesa e tinha um filho nas tropas franquistas. Com grande seriedade, Bernanos mostra a sua repulsa pelos massacres dos franquistas que testemunha quando se desloca a Espanha na presunção de que ia apoiar "aquela gente", como lhes passou a chamar. É o livro de um homem traído pelos seus ideais. Paradoxalmente, é o que dá a imagem mais terrível do General Franco
Três homens apanhados pela História no laboratório ibérico da II Guerra.
Como só os vencedores foram absolvidos pelo regime, escrevo sobre estes livros a pensar na injustiça cometida sobre Baltazar Garçón.
.
Pietá Negra
A pietá muçulmana é comovente, como toda a dor das mães. Mas esta pietá envolta em negro lembra-me outras dores para além da dor imediata da sua perda: a da condição femininina no mundo muçulmano. Acho que a religião em geral não lidou bem com as mulheres, apesar da posição central de Maria no mundo cristão.. Mas o mundo muçulmano acentuou este lado discriminatório.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Um profissional tranquilo
No jogo com o Nacional, Rinaudo entrou com campo com a garra de um jogador sem mágoas físicas. Chegar de uma lesão prolongada, entregar-se ao jogo e marcar um golo, em campo rival e num colectivo psicologicamente abalado, revela uma determinação invulgar. Ainda por cima, vinda de um jovem que diz não apreciar a velocidade do ambiente envolvente do futebol (as celebridades, o stress da fama), que apresenta um perfil sóbrio de quem tudo encara ( as lesões e os triunfos) como se fossem uma naturalidade da sua profissão.
Sou sportinguista e, claro, podem dizer que esta apreciação resulta apenas dessa circunstância. Conheço benfiquistas acérrimos e portistas empedernidos que pensam o mesmo, talvez sem o mesmo ardor. Rinaudo será tudo menos «piegas».
Porém, este exemplo não vale para o mercado laboral nem para extrair metáforas sociais. Rinaudo ganha 480mil euros por ano. Depois da retirada, terá uma almofada mais do que generosa para relançar outros voos quando tiver apenas trinta e pucos anos. O facto de ser um profissional que honra o seu compromisso só lhe fica bem. E um exemplo positivo mas numa carreira de excepção.
No jogo com o Nacional, Rinaudo entrou com campo com a garra de um jogador sem mágoas físicas. Chegar de uma lesão prolongada, entregar-se ao jogo e marcar um golo, em campo rival e num colectivo psicologicamente abalado, revela uma determinação invulgar. Ainda por cima, vinda de um jovem que diz não apreciar a velocidade do ambiente envolvente do futebol (as celebridades, o stress da fama), que apresenta um perfil sóbrio de quem tudo encara ( as lesões e os triunfos) como se fossem uma naturalidade da sua profissão.
Sou sportinguista e, claro, podem dizer que esta apreciação resulta apenas dessa circunstância. Conheço benfiquistas acérrimos e portistas empedernidos que pensam o mesmo, talvez sem o mesmo ardor. Rinaudo será tudo menos «piegas».
Porém, este exemplo não vale para o mercado laboral nem para extrair metáforas sociais. Rinaudo ganha 480mil euros por ano. Depois da retirada, terá uma almofada mais do que generosa para relançar outros voos quando tiver apenas trinta e pucos anos. O facto de ser um profissional que honra o seu compromisso só lhe fica bem. E um exemplo positivo mas numa carreira de excepção.
Os cochichos dos Ministros das Finanças
Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes. Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos, a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar. Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo. Também é uma opção política e ideológica (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível". Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa, o mesmo Governo começou a falar a a uma só voz acentuando que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.
Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes. Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos, a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar. Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo. Também é uma opção política e ideológica (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível". Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa, o mesmo Governo começou a falar a a uma só voz acentuando que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A mensagem de Francisco Pimentel ao PSD da Covilhã publicada esta semana no JF merecia ser ouvida e comentada porque, neste estado de torpor induzida pela toma colectiva de chá de valeriana, continua irreverente e lúcido.
Francisco Pimentel louva o empreendorismo dos industriais covilhanenses e desmente algumas ideias feitas. Por testemunho e algum estudo, sei de dirigentes sindicais e de operários dos anos 20 que se tornaram empresários. Muitos destes industriais vieram do nada e pouco mais possuíam do que boas ideias no tempo certo .Alguns tinham coragem politica e afirmavam a sua autonomia perante o poder politico. Muitos não obedeciam ao ruralismo ideológico que emanava de Santa Comba. .
Porém, também é preciso lembrar um operariado bem informado e participativo em que o «espírito de classe» não contrariava a ambição individual. E convirá, também, não esquecer que a pujança da Covilhã enquanto cidade se fazia com esquecimento das zonas rurais do Concelho,donde provinham os migrantes internos e externos. A Covilhã do século XX só chegou ao resto do Concelho, depois do 25 de Abril, com intervenção pública.
Onde estou em desacordo é que a retoma da pujança da Covilhã se possa dever a este governo do PSD. O empreendorismo e as sociedades civis não dependem só de um Governo, de nenhum. Bem podiam ter esperado os industriais da Covilhã. Salazar gostava tanto de empreendedores como Maomé de toucinho. Por outro lado, o que aconteceu até aos anos 80 nesta cidade é irrepetível. O interior de hoje só sobreviverá de duas formas: quando as grandes cidades se tornarem tão insuportáveis que as próprias populações ou parte delas invertam o sentido migratório e quando se atraírem capitais. Não me parece que qualquer das duas coisas se verifique sem alguma forma de esforço público.
A sociedade civil não é um produto de emanação metafísica. Para além da vontade, é preciso a esperança e o ambiente cultural , demográfico e económico que a favoreçam. É preciso circulação de dinheiro. Com a receita adoptada, isso leva muito tempo. Ora, como dizia o velho Keynes, a longo prazo, estamos mortos. Pior ainda, sem nascimentos que nos substituam.
A Covilhã precisa de uma sustentabilidade económica que vá alem do sector dos serviços. A construção civil está parada. A desertificação cresce. O ensino superior está em estagnação. O turismo precisa de uma abordagem mais ambiciosa . Não se compadece com birras . Houve uma altura em que receei que surgissem mais entidades de turismo do que turistas. Agora,a decisão fica em Coimbra. Ora suspeito, que na CCDR sabem menos sobre a Covilhã do que Lisboa. Vale a pena ver esta rota de museus da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro: não há referência a um espaço museológico na Covilhã-Cidade. Nem o Museu dos Lanífícios já premiado várias vezes. Há referência à capela de Santo Cristo do Teixoso, ao Museu Judaico de Belmonte e ao Museu de Arte Sacra do Fundão. Ora estas últimas são referências correctas e ainda bem que são feitas. As omissões é que não são de cinco estrelas.
Diagnóstico social da Covilhã: a crise não dorme. Apesar de estranhar as ausência de algumas entidades no diagnóstico social da Covilhã- sindicatos, associações patronais, Centro de Emprego, UBI não são citados na notícia do Jornal do Fundão sobre o diagnóstico social da Covilhã- sente-se que não há espaço para optimismos: pobreza, desemprego, baixa qualificação. Acrescentaria que, no essencial, estas matérias não são referidas nos debates intra e inter -partidários sobre escolha de candidatos. Numa carta que escrevi perguntei pelo debate de ideias. Em abono da verdade, também Francisco Pimentel tem aludido a estas questões. De resto é o silêncio.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Em Portugal começou a florir um discurso contra a pieguice que sonha com um português liberal, empreendedor e musculado que , nas conversas de esquina, manda impropérios e compara o Estado Social à sopa dos pobres. Espero que os que assim falam contra as pieguices mostrem o seu curriculum antes de se darem ares de matador. Para que não haja suspeitas de favor estatal ou partidário ou de arrivismo protegido por compadrio. Espero que não considerem nem a cultura nem o Ensino Público nem o Serviço Nacional de Saúde uma pieguice.
O Mariacci começou por ser uma personagem lendário de um México violento .revolucionário. Nos filmes de Roberto Rodriguez tornou-metáfora, talvez abusiva, do macho latino silencioso, de olhar matador, rápido na pistola e firme nas decisões. Era a versão hispânica dos personagens de Clint Eastwood e serviu de imaginário a alguns liberais que olham para a sociedade como uma espécie de última fronteira do Oeste Selvagem.
Espero que esta forma de Mariacci luso não esconda um arrivista gelatinoso. Há matadores que só são ferozes quando estão respaldados por uma entidade externa, um xerife de outra cidade.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
As redes sociais
Os indignados e alternativos têm sido motor de novas formas de comunicação politica. O Occupy Wal Street montou a sua própria forma de comunicar.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Uma viagem pessoal a Woody Allen e a Paris
Quando cheguei a Paris,já pouco restava dos meus imaginários transformados em turismo. Vou lendo o Camus e o Vian, algum Marlaux. Gosto de ouvir Sidney Bechet, Brel e Bécaud. Também gosto de Débussy, Ravel e Satie. Os impressionistas e os cubistas,bem como algumas vanguardas desses anos fazem parte dos meus quadros favoritos. Porém, a tal magia parisiense nunca me tocou exactamente por ser apresentado como uma espécie de museu cruzado com postal turístico. Como se não bastasse isso, sou já da mesma geração daqueles franceses que tinham por referência a América: os esquerdistas e anarquistas seduzidos pelo jazz, pela pop-arte e pelo cinema negro. Os rapazes da Nouvelle Vague. Até a Dolce Vitta de Fellini, um italiano perfeito, um filme maior, prestava uma homenagem indireta a uma certa americanização da Europa. Uma boa parte do cinema europeu nunca fugiu da América.
Houve escritores que me fizeram visitar Paris de entre as duas guerras. Eram todos americanos e nenhum francês. De entre eles, destacou-se Hamingway. O velho não está na moda e tem livros sobrevalorizados, esquecidos e menores. Porém, não há leitor com gosto que resista a alguns contos, ao seu primeiro romance ( The Sun Also Rises- Fiesta ) e a um dos seus últimos: A Movieble Feast, traduzido entre nós como Paris é uma festa. Nos contos, Hem ombreia com a melhor tradição clássica americana. Quanto aos dois textos maiores são um retrato belíssimo de como uma geração de emigrantes viu Paris. São exemplares e ombreiam com Fitzgerald, este mais famoso e menos castigado pelo tempo e pelas modas. Movieble Feast tem uma escrita enxuta,elegante e conversas fantasticas com Ezra Pound, Gertrude Steim, Fitzgerald e Silvia Plat. Vem tudo isto a propósito, porque ontem tive finalmente tempo e vontade de ver "Meia Noite em Paris". Sendo admirador de algus filmes de Woody Allen , era natural que tivesse feito isto antes. Porem, tinha medo que Woody Allen se perdesse numa imagem nostálgica da boémia da Rive Gauche.
Ora o velho judeu é rijo e autocrítico como só um judeu pode ser em relação aos seus próprios afectos. De acordo com os estereótipos, há três tipos de judeus: os que deixam crescer longas barbas, emigram do Leste, são ortodoxos, fanáticos e anti-árabes; os judeus de anéis nos dedos e nariz adunco que conspiram pela dominação no mundo; os judeus do Kibutz herdeiros do socialismo sionista que também acreditam no Povo Eleito. Tudo isto é de um reducionismo pobre e ocioso mas, como todos os estereótipos, são auto-confirmativos, logo é inutil discuti-los. Há mais dois tipos de judeus: os que não se parecem com judeus e raramente se lembram que o são - donde é logo discutível que o sejam. E um um útimo tipo: o judeu crítico, desenraizado e cosmopolita que ri dos seus próprios afectos e tradições. Woody Allen pertence a este último tipo. Já o vimos caricaturar rabis, circuncisões, rituais de casamento e comida Kosher com uma mordacidade que só um judeu teria.
Porém,Woody Allen não se fica por Brooklin. Allen é perito em desconstruir tudo o que gosta: o amor, o teatro, o cinema de Bergman, Sakespeare, Tchecov, Paris, a intelectualidade nova-iorquina e até Deus, a moral e a Arte. Ele gosta dessas coisas, reserva-lhes uma certa dose de ternura ocasional mas ao mesmo tempo precisa de distanciar-se delas com uma mordacidade dolorosa.
"Maiea Noite em Paris" corria o risco sério de se tornar um pastelão para turistas Porém, ele sabe do métier. A reconstrução do imaginário da geração perdida é tão eficaz como a desconstrução. Ora estamos à beira de uma nostalgia kitsch, oraresvalamos para o nonsense e para o ridículo. Scott Fitzgerald e Zelda são exactamente como as fotos de Scott Fizgerald e Zelda e Hemingway declama, com cara de pau, trechos inteiros de passagens de textos seus sobre a sua concepção de literatura, a importância das touradas e a virilidade. Buñuel é chapado ele próprio e Dali irrita. Algumas cenas são inspiradas no Movieble Feast de Hemingway. . Woody Allen explora a nostalgia do imaginário, adere a essa nostalgia, e depois diz através de um personagem : quem acredita naquilo é um bando de pilulas que sofre de tumor cerebral. Depois, introduz um final redentor mas propositadamente banal e conscientemente ambíguo: Paris é óptimo para se e ser jovem e escrever romances e viver numas água-furtadas com a dona de um alfarrabista que gosta de Cole Porter. Pode ser irritante mas é feito com bom gosto e talento. Não sei se Woody Allen é um grande realizador (embora Annie Hall, Manhattan, Crimes e Escapadelas possam indiciar que tenha sido ) mas é um entertainer fabuloso..
Já agora a 1º foto é da promoção do filme. O toque de impressionismo vangoghiano sobre os céus de Paris é tão interessante quanto oportunista. A segunda foto remonta à primeira leitura que fiz de Hemingway: "The Sun Also Rises" (Fiesta) para a colecção de Bolso Livros RTP. As duas senhoras são Gertrude Stein e Alice Tolkien e a última imagem é de Scoot Futzgerald e Hemingway no filme. Por baixo: Picasso e Hemingay em Paris. Que cromos!
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Empresas saídas das universidades são cada vez mais
Diz o Público: " Os pequenos ou micronegócios da inovação estão a multiplicar-se no país. São pequenos ou micronegócios em fase de arranque intimamente ligados à inovação e, na maioria, "filhos" das universidades. Chamam-lhes spin-offs ou start-ups e são cada vez mais em Portugal. Só na Universidade do Porto (UP), esta promessa de negócio reunia cinco projectos em 2007 - hoje já soma 106. Mas há mais exemplos. . "
Acredito que que estes modelos serão uma das formas de as Universidades intervirem no tecido social que a rodeia. As Universidades são um lugar onde é possível inovar e dirigir a investigação para o desenvolvimento económico, social e comunitário. Claro que isso implica uma envolvência com o ambiente, nomeadamente institucional, que raramente é compreendido nomeadamente pelas autarquias.
PS combate caciquismo interno e propõe directas para candidato
A actual direcção do PS vai revelando um dos seus lados mais positivos no aprofundamento da democracia interna.
Poderá existir um modelo mais autónomo de escolha dos candidatos às autarquias. A palavra "directas " não é mencionada mas pode-se adivinhar, embora existam modelos muito diferenciados de consulta dos militantes.
Alguns dos desenvolvimentos aos quais assisti reforçam a validade de algumas destas sugestões: A participação dos militantes permitiria a) o confronto de de ideias; b) a apresentação de alternativas claras; c) consistiria um rude golpe nos sindicatos de voto e nalgumas formas de caciquismo bacoco.
E, claro, o Orçamento Participativo,ou seja a possibilidade de alocar recursos financeiros através da participação colectiva como se faz em Câmaras de todo o país de todas as facções politicas.
Um dos problemas portugueses é a ausência de sociedade civil.Em conversa acalorada com um amigo que apoia este este Governo este disse-me que o liberalismo ajuda a estimular a independência do Estado. Eu acredito que Portugal deve minimizar a dependência do Estado. Porém, não é através do salve-se quem puder liberal mas através do alargamento de práticas deliberativas e participadas de decisão. É um caminho difícil e com muitos riscos. Como tudo o que vale a pena.
Poderá existir um modelo mais autónomo de escolha dos candidatos às autarquias. A palavra "directas " não é mencionada mas pode-se adivinhar, embora existam modelos muito diferenciados de consulta dos militantes.
Alguns dos desenvolvimentos aos quais assisti reforçam a validade de algumas destas sugestões: A participação dos militantes permitiria a) o confronto de de ideias; b) a apresentação de alternativas claras; c) consistiria um rude golpe nos sindicatos de voto e nalgumas formas de caciquismo bacoco.
E, claro, o Orçamento Participativo,ou seja a possibilidade de alocar recursos financeiros através da participação colectiva como se faz em Câmaras de todo o país de todas as facções politicas.
Um dos problemas portugueses é a ausência de sociedade civil.Em conversa acalorada com um amigo que apoia este este Governo este disse-me que o liberalismo ajuda a estimular a independência do Estado. Eu acredito que Portugal deve minimizar a dependência do Estado. Porém, não é através do salve-se quem puder liberal mas através do alargamento de práticas deliberativas e participadas de decisão. É um caminho difícil e com muitos riscos. Como tudo o que vale a pena.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A violência
É absolutamente impensável a quantidade de violência que se pode colocar nas mais insignificantes actividades humanas. O Egito incendiou a alma num jogo de bola.
E há a violência verbal e escrita. O espaço público de uma forma geral está menos conceptual e mais irracional. Há comentadores que tem a a dimensão de um mosquito e o fanatismo de um talibã. A democracia fez-se com base no argumento como forma de dirimir o conflito, sem recurso à guerra. É uma enorme exigência para a razão.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Parado na estação deserta....
As estações podem ser o lugar da mais trágica solidão, penso eu. Ali se encontram tristes a sonhar com o sonho que não se realizou: o Sebastião que não veio, o livro que não escreveram, o mestrado que nunca mais terminava, o partido que não cresceu, a pequenez sempre a encolher, o comboio que nunca mais parte. Pra ali estão à espera da boleia ou da gratidão pela encomenda.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Perfume Francês
Um a amigo com sentido de humor fez-me chegar um divertido texto escrito numa mescla de teixosense técnico com accent français. É uma espécie de viva a Maria e Viva o Manuel em versão magisterial. Permitam-me que vos cite quelques passages vraiment chic: "Num discurso que não é desconhecido e já revelado no passado, parece ressurgir a emissão de comunicados e cartas abertas ao leitor que pretendem alimentar dúvidas sobre a idoneidade de pessoas e promover o julgamento do seu carácter, com habitué de magistratura que, não raras vezes, ultrapassam o estrito nível político." Profundo.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
As aventuras do Governo no Reino das redes sociais.
O 1º Ministro entrou nas redes sociais. A página de Facebook chama-se O meu movimento.Aqui há uns tempos assisti a algumas observações empíricas sobre páginas sociais promovidas por organizações partidárias de juventude e organizações expontâneas de causas e movimentos cívicos. As primeiras caracterizavam-se pelo deserto de ideias e pela celebração de uma ritual que um saudoso 1º Ministro ( não, não era o meu conterrâneo José Sócrates) chamava de "Vivas à Maria e ao Manel." As segundas tinham ideias mas estavam eivadas de um derrotismo cínico que se podia categorizar, igualmente de modo jocoso: "Abaixo qualquer Maria e qualquer Manel". A celebração e a indignação são itens políticos. Porém, serão úteis? Entre a propaganda e o derrotismo há espaço para outra coisa? Duvido do estilo da página Facebook do 1º Ministro . O simples facto de se auto-intitular de governamental ( há muitas formas de dizer o mesmo) e se colocar numa postura de informalidade pouco convincente revela que a classe politica não sabe usar a difícil arte de trabalhar nas redes sociais. Eu também não disponho dessa arte mas recomendo mais criatividade. O Facebook é um ambiente ingrato para a politica institucional.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Spin Doctors: nas sombras da política
Como investigador de Comunicação Politica, o fenómeno do spin doctoring interessa-me. Os spin doctors são assessores de comunicação geralmente ocultos que geram nos media informação favorável para as entidades com que trabalham e transmitem informação que prejudica os adversários dessas identidades. Estrela Serrano, Professora da ESCS dedica algum tempo à investigação deste interessante fenómeno e diz que ele se pode induzir a partir de notícias não atribuídas. Se as fontes não se conhecem, então quem gerou a notícia? Descontada a hipótese de ela resultar de uma aprofundada investigação jornalística ( o que, a ter-se verificado, se notaria na existência de fontes identificáveis), descontada também a hipótese de fenómenos paranormais de propagação telepática da informação,sobram eles os spins, trabalhando na sombra propagando factos políticos.
Contrariamente ao que pensa um distinto investigador meu antigo aluno, que dá pelo nome de Helder Prior e, que, para bom nome da UBI, reflecte com muito acerto sobre estes temas, não acredito que o spin se insira no modelo de propaganda. O modelo de propaganda, identificado nos anos 30, implica a existência de arautos bem conhecidos,o matraqueamento macisso das massas com slogans uniformes e claramente intencionais. Um investigador escocês chamado Brian McNair clama que nós hoje vivemos no modelo comunicacional do caos: as mensagens dos grandes media são descodificadas nas redes sociais, há uma multiplicidade de plataformas é infinita (desde os jornais aos telemóveis e aos Ipads), a televisão por cabo espalha-se pelo mundo. Na Tunísia, o governo ditatorial censurou a internet dentro das suas fronteiras.Porém,os jornalistas da AlJazzer iam buscar os vídeos das manifestações feitos por "amadores" usando telemóveis e passavam-nos no interior da Tunísia, aonde o canal chegava via cabo a 50 % dos lares daquele país. A mensagem da oposição saía pela porta e entrava pela janela. Dizem que a Câmara da Covilhã exerce um controlo severo sobre a imprensa e a rádio da Covilhã. Porém, este controlo é curtocicuitado sistematicamente por blogues como este ou o Carpinteira (que até se referiu a mim como um poder fáctico, que obviamente agradeço,mas é manifestamente exagerado) ou por jornais do concelho vizinho. Por isso, surgem novas profissões: em lugar da boa velha propaganda,aparecem profissões como os spins, gestores de redes sociais e outros. Ou seja, a propaganda e a vontade controlo existem mas já não se desenvolvem num cenário unilateral de propaganda de um único centro de poder: é o universo dos boatos, da contra-informação, das máscaras, dos silêncios geridos e das censuras ocultas. Foi por isso ( e não por egocentrismo) que criei sempre blogues,personalizados, individuais e com fotografia. Foi um risco calculado de exposição mas também de auto-responsabilização.
Um caso óbvio de spin é a recente propagação de notícias que dão conta do distanciamento de Cavaco em relação a Passos Coelho e Vitor Gaspar. Espalhados pelo Público e pelo Expresso encontramos os lamentos lancinantes das pessoas associadas a Cavaco Silva contra a euforia ultra-liberal de Coelho, de Vitor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.
Este impeto social democrata do Presidente da República tem três significados, na minha modesta opinião:
a) O Presidente quer desviar as atenções da sua mensagem desastrada sobre as dificuldades que passa com as suas modestas reformas.
b) O Presidente quer ganhar espaço de manobra politica para se distanciar dos duros do PSD, aparecendo como moderador e moderado.
c) Porém, a estratégia comunicacional também é uma estratégia de poder. O Presidente da República não quer ser a rainha da Inglaterra, e quer envolver mais o PS e a UGT neste círculo. Cavaco Silva teve uma estratégia clara: correr com Sócrates, eleger o PSD e presidir a uma maioria politicamente favorável sem nunca deixar de lado a existência de pontes com o PS enquanto almofada de garantia. Se Gaspar e Coelho falharem, como as decisões europeias cada vez mais indiciam, as cadeiras do poder podem transformar-se em cadeiras eléctricas. A comunicação politica não é só marketing e quando alguém manda dizer que se distanciou de alguém, mesmo sem querer, distancia-se mesmo.
Resta-me desejar ao Presidente que não confie no Dr. Fernando Lima para estas andanças. Um bom spin é discreto, fantasmagórico e indetectável. Nos tempos que correm em que as redes, os blogues e as televisões concorrem, a propaganda não é um slogan: é um sussurro ao qual se segue, claro, o barulho.
Contrariamente ao que pensa um distinto investigador meu antigo aluno, que dá pelo nome de Helder Prior e, que, para bom nome da UBI, reflecte com muito acerto sobre estes temas, não acredito que o spin se insira no modelo de propaganda. O modelo de propaganda, identificado nos anos 30, implica a existência de arautos bem conhecidos,o matraqueamento macisso das massas com slogans uniformes e claramente intencionais. Um investigador escocês chamado Brian McNair clama que nós hoje vivemos no modelo comunicacional do caos: as mensagens dos grandes media são descodificadas nas redes sociais, há uma multiplicidade de plataformas é infinita (desde os jornais aos telemóveis e aos Ipads), a televisão por cabo espalha-se pelo mundo. Na Tunísia, o governo ditatorial censurou a internet dentro das suas fronteiras.Porém,os jornalistas da AlJazzer iam buscar os vídeos das manifestações feitos por "amadores" usando telemóveis e passavam-nos no interior da Tunísia, aonde o canal chegava via cabo a 50 % dos lares daquele país. A mensagem da oposição saía pela porta e entrava pela janela. Dizem que a Câmara da Covilhã exerce um controlo severo sobre a imprensa e a rádio da Covilhã. Porém, este controlo é curtocicuitado sistematicamente por blogues como este ou o Carpinteira (que até se referiu a mim como um poder fáctico, que obviamente agradeço,mas é manifestamente exagerado) ou por jornais do concelho vizinho. Por isso, surgem novas profissões: em lugar da boa velha propaganda,aparecem profissões como os spins, gestores de redes sociais e outros. Ou seja, a propaganda e a vontade controlo existem mas já não se desenvolvem num cenário unilateral de propaganda de um único centro de poder: é o universo dos boatos, da contra-informação, das máscaras, dos silêncios geridos e das censuras ocultas. Foi por isso ( e não por egocentrismo) que criei sempre blogues,personalizados, individuais e com fotografia. Foi um risco calculado de exposição mas também de auto-responsabilização.
Um caso óbvio de spin é a recente propagação de notícias que dão conta do distanciamento de Cavaco em relação a Passos Coelho e Vitor Gaspar. Espalhados pelo Público e pelo Expresso encontramos os lamentos lancinantes das pessoas associadas a Cavaco Silva contra a euforia ultra-liberal de Coelho, de Vitor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.
Este impeto social democrata do Presidente da República tem três significados, na minha modesta opinião:
a) O Presidente quer desviar as atenções da sua mensagem desastrada sobre as dificuldades que passa com as suas modestas reformas.
b) O Presidente quer ganhar espaço de manobra politica para se distanciar dos duros do PSD, aparecendo como moderador e moderado.
c) Porém, a estratégia comunicacional também é uma estratégia de poder. O Presidente da República não quer ser a rainha da Inglaterra, e quer envolver mais o PS e a UGT neste círculo. Cavaco Silva teve uma estratégia clara: correr com Sócrates, eleger o PSD e presidir a uma maioria politicamente favorável sem nunca deixar de lado a existência de pontes com o PS enquanto almofada de garantia. Se Gaspar e Coelho falharem, como as decisões europeias cada vez mais indiciam, as cadeiras do poder podem transformar-se em cadeiras eléctricas. A comunicação politica não é só marketing e quando alguém manda dizer que se distanciou de alguém, mesmo sem querer, distancia-se mesmo.
Resta-me desejar ao Presidente que não confie no Dr. Fernando Lima para estas andanças. Um bom spin é discreto, fantasmagórico e indetectável. Nos tempos que correm em que as redes, os blogues e as televisões concorrem, a propaganda não é um slogan: é um sussurro ao qual se segue, claro, o barulho.
Os 101 melhores insultos cinematográficos de todos os tempos
Vagueando pelo You Tube, encontrei 101 melhores insultos cinematográficos da história.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Um único tribunal por distrito?
A reforma dos tribunais proposta aqui por Paula Teixeira da Cruz parece-me perigosa e demasiado assente em pressupostos de regra e esquadro, à semelhança de outras politicas que esquecem a coesão nacional. É um assunto demasiado sério para ser decidido num clique de iluminação algo "talibâmica".
Alemanha exige perda de soberania à Grécia.
Cito Agência Reuters: Para que a Grécia recebe um novo pacote de ajuda financeira, a Alemanha quer que o país abdique da soberania sobre as decisões orçamentais, transferindo-a para um comissário do Orçamento da Zona Euro. O valor do empréstimo em causa era inicialmente de 130 mil milhões de euros, mas a troika estima agora que Atenas precisa de mais 15 mil milhões.
e «o novo comissário [da Zona Euro] teria o poder de vetar decisões orçamentais tomadas pelo governo grego se não estivessem em linha com os objectivos estabelecidos pelos credores internacionais».
O novo responsável, que seria nomeado pelos restantes ministros das Finanças do espaço do euro, teria a responsabilidade de supervisionar «todos os grandes blocos de despesas» do governo de Atenas.
«A consolidação orçamental tem de ser colocada sob orientação e sistema de controlo rigorosos. Tendo em conta o cumprimento decepcionante até agora, a Grécia tem de aceitar transferir a soberania orçamental para um nível europeu por um determinado período de tempo».
E ainda há mais: Atenas ficaria também obrigada a adoptar uma lei, de caráter permanente, que garantisse que as receitas do Estado seriam canalizadas, «em primeiro lugar», para os serviços de dívida.
Não sofro de germanofobia doentia. Porém, 150 anos de história demonstram que é preocupante a frequência com que as elites alemãs têm uma forma particular de superar o seu défice de identidade,que se traduz, por vezes,num irrealismo gritante.
Mais uma vez, há um jogo de sombras inquietante em que é preciso descodificar os mecanismos de comunicação política. Quando se exige tanto, há que colocar a hipótese de a outra parte rejeitar os termos do acordo. Se a Grécia colapsar, um dos cenários é a Europa do Sul acentuar ainda mais a presença do manto alemão. Será esse o seu objectivo? Por mim , acredito no discurso de Helmuth Schmidt,segundo o qual a Alemanha deve repensar a forma de existir com os seus vizinhos.
Os economistas «de serviço» - não me refiro aos cientistas sociais que estudam uma disciplina chamada economia - sabem pouco de história.Creio que este défice de análise se deve a um fenómeno que Tony Judt referiu como esqucimento colectivo: a crença errónea que a história começou com Ronald Reagan, a revolução liberal-conservadora e a reunificação alemã estando neste momento a chegar ao seu fim, anunciado por Fukyama. Ou seja, ideologia pura e dura.
e «o novo comissário [da Zona Euro] teria o poder de vetar decisões orçamentais tomadas pelo governo grego se não estivessem em linha com os objectivos estabelecidos pelos credores internacionais».
O novo responsável, que seria nomeado pelos restantes ministros das Finanças do espaço do euro, teria a responsabilidade de supervisionar «todos os grandes blocos de despesas» do governo de Atenas.
«A consolidação orçamental tem de ser colocada sob orientação e sistema de controlo rigorosos. Tendo em conta o cumprimento decepcionante até agora, a Grécia tem de aceitar transferir a soberania orçamental para um nível europeu por um determinado período de tempo».
E ainda há mais: Atenas ficaria também obrigada a adoptar uma lei, de caráter permanente, que garantisse que as receitas do Estado seriam canalizadas, «em primeiro lugar», para os serviços de dívida.
Não sofro de germanofobia doentia. Porém, 150 anos de história demonstram que é preocupante a frequência com que as elites alemãs têm uma forma particular de superar o seu défice de identidade,que se traduz, por vezes,num irrealismo gritante.
Mais uma vez, há um jogo de sombras inquietante em que é preciso descodificar os mecanismos de comunicação política. Quando se exige tanto, há que colocar a hipótese de a outra parte rejeitar os termos do acordo. Se a Grécia colapsar, um dos cenários é a Europa do Sul acentuar ainda mais a presença do manto alemão. Será esse o seu objectivo? Por mim , acredito no discurso de Helmuth Schmidt,segundo o qual a Alemanha deve repensar a forma de existir com os seus vizinhos.
Os economistas «de serviço» - não me refiro aos cientistas sociais que estudam uma disciplina chamada economia - sabem pouco de história.Creio que este défice de análise se deve a um fenómeno que Tony Judt referiu como esqucimento colectivo: a crença errónea que a história começou com Ronald Reagan, a revolução liberal-conservadora e a reunificação alemã estando neste momento a chegar ao seu fim, anunciado por Fukyama. Ou seja, ideologia pura e dura.
A História
A história não é feita de determinismos mas as conjunturas têm alguma dose de previsibilidade. Leiam-se neste link alguns cenários previsíveis para a Europa.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Considerações sobre o tempo: Pedro e o Lobo, a esquerda e a comunicação política.
Quem conhece a história popular sobre Pedro e o Lobo lembra-se da mensagem. Não se deve ser alarmista porque se desvaloriza o peso dos avisos. Um semáforo vermelho pode acender antes do tempo. Um dia, percebi que os partidos de extrema esquerda são como semáforos vermelhos: anunciam o perigo muito antes de ele ocorrer. Pode ser útil mas há o risco de os condutores deixarem de confiar nos sinais luminosos.
O PCP e os movimentos e partidos congregados no BE anunciaram desde os anos 70 e 80 " a perda de direitos sociais" e o "ataque às conquistas de Abril". Na sua retórica específica, anunciavam o fim do regime nascido dos compromissos efectuados no fim do PREC, plasmados na Constituição de 1976.
Um dia, o lobo chegou e entrou mesmo no redil. A população estava cansada de ser avisada pelo Pedro e já estava preparada para aceitar a chegada do lobo, desde que fosse uma chegada "negociada". Os automobilistas cansaram-se dos sinais vermelhos avariados e arriscaram entrar na estrada a destempo: se o sinal não é fiável ainda podemos avançar. Nessa altura, PCP e BE começaram a ter alguma espécie de razão na análise mas parece que ninguém lhes liga. Afinal, a história do Pedro e do Lobo é uma aula de Comunicação Politica.
O PCP e os movimentos e partidos congregados no BE anunciaram desde os anos 70 e 80 " a perda de direitos sociais" e o "ataque às conquistas de Abril". Na sua retórica específica, anunciavam o fim do regime nascido dos compromissos efectuados no fim do PREC, plasmados na Constituição de 1976.
Um dia, o lobo chegou e entrou mesmo no redil. A população estava cansada de ser avisada pelo Pedro e já estava preparada para aceitar a chegada do lobo, desde que fosse uma chegada "negociada". Os automobilistas cansaram-se dos sinais vermelhos avariados e arriscaram entrar na estrada a destempo: se o sinal não é fiável ainda podemos avançar. Nessa altura, PCP e BE começaram a ter alguma espécie de razão na análise mas parece que ninguém lhes liga. Afinal, a história do Pedro e do Lobo é uma aula de Comunicação Politica.
Considerações sobre o tempo
O tempo é uma variável estratégica na politica. A sabedoria dos povos ensina-nos a todo o tempo como a escolha do momento é importante. "Tempo para amar , Tempo para Morrer", escrevia Erich Maria Remarque. Hoje sabemos que não é bem isso: o ser humano é complicado e os tempos para amar e morrer são simultâneos.
Faz alguns muitos anos, o então muito jovem Francisco Pimentel disse na Assembleia Municipal o seguinte ditado: "As cadelas apressadas têm filhos cegos". Ao tempo, o então muito jovem Francisco Pimentel era uma espécie de figura desenraizada do universo do burgo. Como não era covilhanense, não tinha excesso de referências nem passado nem reverências. Só tinha futuro o que lhe dava uma lucidez acrescida e uma superlativa capacidade para ser "maroto" para com os adversários. Como vítima dilecta, tiro-lhe o chapéu e espero ter estado à altura. Não sabia por exemplo, que este ditado não é usual na Beira Baixa ou, pelo menos, não o era no burgo covilhanense. Grande indignação caiu na vetusta Assembleia. Os parlamentares - muitos dos quais nunca tinham escutado a expressão- quando ouviram falar em "filhos", "cadelas" e "cegos" tiveram uma espécie de desmaio cerebral. Acontecia.
Todos estes ditados e títulos literários sobre o tempo justo são válidos para a estratégia política. Por exemplo, há um tempo para estar calado e há um tempo para anunciar candidatos. Há quem troque. Como a originalidade é uma arte, quem sou eu para criticar?
Faz alguns muitos anos, o então muito jovem Francisco Pimentel disse na Assembleia Municipal o seguinte ditado: "As cadelas apressadas têm filhos cegos". Ao tempo, o então muito jovem Francisco Pimentel era uma espécie de figura desenraizada do universo do burgo. Como não era covilhanense, não tinha excesso de referências nem passado nem reverências. Só tinha futuro o que lhe dava uma lucidez acrescida e uma superlativa capacidade para ser "maroto" para com os adversários. Como vítima dilecta, tiro-lhe o chapéu e espero ter estado à altura. Não sabia por exemplo, que este ditado não é usual na Beira Baixa ou, pelo menos, não o era no burgo covilhanense. Grande indignação caiu na vetusta Assembleia. Os parlamentares - muitos dos quais nunca tinham escutado a expressão- quando ouviram falar em "filhos", "cadelas" e "cegos" tiveram uma espécie de desmaio cerebral. Acontecia.
Todos estes ditados e títulos literários sobre o tempo justo são válidos para a estratégia política. Por exemplo, há um tempo para estar calado e há um tempo para anunciar candidatos. Há quem troque. Como a originalidade é uma arte, quem sou eu para criticar?
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Luta cívica: Carta aberta a Luís Miguel Nascimento
Eis que aqui surge um novo Blogue. A primeira mensagem é sobre a minha cidade. Trata-se de uma carta aberta a Luís Miguel Nascimento que sairá amanhã no Jornal do Fundão e que aqui transcrevo.
Pela sua dimensão a carta sai em versão reduzida na edição em papel e pode ser vista na integra aqui Modernices.
Quanto ao PS, o tempo dos partidos monoliticamente fechados terminou. Há coisas que têm que ser ditas na praça pública.
Prezado Presidente da Comissão Política do PS
Meu Caro Amigo
Permite-me manter este trato pois não é meu hábito confundir planos pessoais e políticos nem guardar amarguras de fel. Como uma vez me disseste “isto é apenas política”.
O PS da Covilhã assemelha-se hoje a uma espécie de Titanic em que ninguém sabe que pode embater num iceberg, e como tal, afundar-se. A tripulação e o capitão seguem em frente alheios à catástrofe, sem consultarem o radar, a bússola e o astrolábio ou sejam o bom senso, a capacidade de julgamento e a frieza estratégica que caracterizam os líderes políticos. Vinte anos depois, o PS está na mesma linha de partida em que estava quando perdeu o poder: dividido, assolado por guerras intestinas sem objectivo à vista. Só te escrevo porque ainda é tempo de arrepiar caminho antes de bater no Iceberg. Mas terás que fazer parte da solução para minimizar estragos.
Com a franqueza que geralmente caracteriza as nossas velhas relações, permite-me que te diga: “Cometeste um erro”.
Cometer erros não é um monopólio teu. Não há no PS da Covilhã quem possa, em consciência, dizer que acertou sempre. O problema é que cometeste erros capitais.
O passado
Importa regressar ao início.
Quando se gerou o processo que originou esta comissão política, o PS tinha condições objectivas para regressar à Câmara.
Em primeiro lugar, sabia-se que se verificaria uma mudança de liderança na autarquia.
Em segundo lugar, o número de descontentes da actual maioria camarária cresceria alargando a possibilidade de atracção de quadros no centro político entre as próprias elites que apoiaram a actual maioria.
Em terceiro lugar, a diminuição de transferências financeiras, as dificuldades de financiamento e a diminuição da execução de obras iriam mostrar debilidades na actual maioria. Não pensei na altura que viesse a ter tanta razão.
Finalmente, a própria disputa interna do PSD, na ausência de um delfim forte, favorecia quem se mantivesse unido na oposição.
O que se passou
O primeiro grave erro que cometeste consistiu no lançamento de um convite com uma antecedência sem precedentes, para encabeçar a lista do PS. Pior, esse erro foi agravado pelo facto de o convite, não sendo uma indigitação, ter sido apresentado como uma espécie de facto consumado numa manobra pouco hábil de ocupação de terreno.
Não discuto os méritos da pessoa convidada. Discuto é a forma como isso foi feito.
Ao fazer esse convite, geraste na opinião pública uma situação de exposição extrema tanto mais grave quanto o percurso do teu candidato conhecesse dissabores e exposição mediática negativa.
Segundo, esqueceste-te que um convite mesmo aceite é apenas um convite . Pode ser sempre confrontado com novos convites pois não tem uma deliberação de aceitação. Isto é tanto mais verdade, quanto há eleições para uma nova Comissão Politica antes das eleições autárquicas. Mesmo depois de dada a resposta ao convite será sempre isso mesmo: uma resposta a um convite.
Finalmente, não previste o protagonismo extremo que a pessoa convidada iria ter nomeadamente no processo de escolha do Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Não discuto os méritos da sua candidatura nem da sua equipa. Não conheço a Santa Casa nem os seus problemas em pormenor. Porém, objectivamente, deparamo-nos com esta situação:
De um lado, um Provedor eleito, afecto ao PS, propunha uma diminuição de direitos e regalias aos trabalhadores da Santa Casa. Do outro lado, o Provedor que lhe sucedeu é exposto nos jornais como uma figura que tudo faz para assegurar os subsídios dos trabalhadores em atraso. Não conheço o Sr. Pedro Paiva suficientemente para aquilatar do que se passa. Reportando-me aos jornais, esta é a imagem que ressalta. Não é completamente surpresa. Para os mais atentos, torna-se óbvio que o aconselhamento económico do teu candidato evidencia um viés onde não há lugar para o humanismo e tudo se resume, num economês pobre e voluntarista a uma questão de” reajustamentos”.
De um lado, um Provedor eleito demitia-se do cargo quinze dias depois. Do outro, a imagem pública que resulta é a de uma pessoa disponível para enfrentar um mandato longo e difícil.
De um lado, surgiam ataques que sugeriam a existência de assessores afectos à mesma pessoa que teriam feito um estudo por uma verba interessante. Não me pronuncio sobre os méritos do estudo nem sobre a verba alegadamente paga nem quero saber quem são os assessores. Como não faço processos de intenção, limito-me a recordar o lugar-comum sobre a mulher de César.
Ou seja, confirmava-se a minha previsão: uma candidatura prematura, ou um convite prematuro, obrigaria a uma exposição demasiado permanente da qual podiam resultar dissabores graves.
Finalmente, numa inexplicável fuga para à frente, decidiste fazer um comunicado de apoio à pessoa (na sua qualidade de Provedor), o que não eras obrigado fazer. Era a cereja degradada no cimo de um bolo mal cozido, prematuramente saído do forno, A solidariedade fica bem. Os termos, os modos e os lugares podem transformá-la em imprudência.
Em suma, assumiste o papel de capitão de uma parte da tripulação, o que não é aconselhável para um comandante.
Adivinho (é um segredo de Polichinelo) que a breve trecho vais anunciar a aceitação de um certo convite. E ate te vais sentir bem alguns dias, tentando convencer-te a ti próprio que fizeste o que era certo. Erro teu, má fortuna, delírio ardente. Já imagino a cena: é com grande alegria que anuncio que o senhor fulano após um ano e seis meses de ponderação concluiu que aceitava ser candidato a Presidente. Com toda a boa fé, sem ironia, acho que não o deves fazer. É previsível? É. É uma boa “jogada” de curto prazo? Até pode ser. Mas será ganhadora? E o preço? Será que os militantes ou a sua maioria significativa apoiarão um risco que se afigura assente na teimosia e não na ponderação prudente? E a Covilhã? E o debate de ideias?
Os perigos e as oportunidades.
Quanto aos perigos só quem ande cego e perdido nas pequenas intrigas palacianas do PS não repara que, aproveitando o imenso poder acumulado, o PSD se prepara cuidadosamente para as eleições.
Há sinais claros de reformulação de uma nova classe política no PSD incluindo independentes Quem ler os jornais verá que o processo de alinhamento para as candidaturas está a desenvolver-se notando-se algum mérito e, sobretudo, discrição nas pequenas coincidências que se vão adivinhando. Mais, há sensibilidade para as novas relações de poder e dinâmicas sociais que se desenvolvem no Concelho. Com todas as insanáveis divergências que, enquanto socialista, tenho em relação ao PSD, neste momento e circunstâncias, o PSD partiria a frente. Felizmente, não é ainda o momento e as circunstâncias irão mudar.
Quanto às oportunidades, não é preciso lembrar-te que o PS dispõe de um capital de personalidades que permitem uma escolha serena, ponderada e racional.
Alguém, no seu juízo perfeito, pode ignorar a consistência e a perspicácia de autarcas cujo sacrifício e empenho em sucessivas eleições têm sido a imagem do Partido, lutando, vencendo ou convencendo em difíceis pugnas eleitorais ou em Juntas de Freguesia urbanas e rurais de grande dimensão? É possível impugnar à partida o seu contributo, o seu conselho ao menos?
Alguém, no seu perfeito juízo, pode ignorar uma lista de vereadores (não apenas os eleitos) responsável por um programa que foi acolhido como um dos melhores diagnósticos do Concelho jamais feito?
Mais ainda: alguém ignora que as circunstâncias eleitorais permitiram que alguns independentes de grande qualidade e experiência comprovada na gestão se encontram disponíveis para a actividade cívica, pois deixaram os lugares que ocupavam à frente de instituições públicas de grande exigência?
Desde já digo que não consultei nenhuma das pessoas aqui aludidas pelo que me fico por uma alusão da minha exclusiva responsabilidade. Todavia sempre acrescento quer o que referi é um segredo de Polichinelo que só não é visível par os piores cegos: os que não querem ver.
Não escondo o que penso:
O candidato do PS terá que ter experiência de gestão financeira, enorme capital relacional político, sensibilidade para as freguesias e para o associativismo.
Mas também terá que ter uma enorme sensibilidade para as novas dinâmicas que a Covilhã conhece. As ameaças estão bem diagnosticadas. As oportunidades estão do lado da requalificação de quadros e de uma aguda percepção de novas dinâmicas onde se incluem a UBI, a Faculdade de Ciências da Saúde, o Centro Hospitalar, o UBI Medical, o UBI Tecnical, as novas tecnologias, a recuperação do espaço público e a recuperação urbana, o Data Center , o desenvolvimento turístico inteligente e a competitividade fiscal para a atracção de recursos humanos e indústrias.
Se sei quem preenche essas condições? Sei. Se e uma única pessoa? Não, claro que não. Há varias pessoas com características diferentes que poderão apresentar essa sensibilidade. Ora, se eu sei, como te considero igualmente atento, também sabes.
Em face destes argumentos, suponho que a saída mais razoável exige algumas premissas:
Em primeiro lugar, é preciso dar voz aos militantes para que estes se pronunciem. Sem agressões mútuas nem hipocrisias.
Em segundo lugar, é preciso abandonar a ideia peregrina de afunilar em torno de um candidato e, serenamente, admitir outras hipóteses sem preconceitos.
Finalmente, importa que as próximas eleições internas sejam o movimento de clarificação. A questão vai ser simples: o PS quer conquistar a Câmara ou vai envelhecer na oposição?
Acredita, que tal como comecei, penso que “isto é apenas política” e como tal espero uma disputa leal, franca e sem fel, caso persistas no que considero serem os teus erros.
Aceita os cumprimentos sinceros
Do João Carlos Ferreira Correia
Pela sua dimensão a carta sai em versão reduzida na edição em papel e pode ser vista na integra aqui Modernices.
Quanto ao PS, o tempo dos partidos monoliticamente fechados terminou. Há coisas que têm que ser ditas na praça pública.

















