terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
HUGO
É preciso, por vezes, meia dúzia de anos para sabermos se um livro ou filme eram uma obra-prima. Há quem diga que Hugo é uma obra-prima. Não vou tão longe. Tem uma direcção artística excelente, um uso extraordinário da tecnologia de 3D, excelentes actores em papéis secundários e principais, tem um argumento com alguns buracos desculpáveis e tem, sobretudo, um genuíno amor ao cinema. Para além das referências à cultura popular (de Jules Verne ao Hallo, Hallo, a fantática série inglesa sobre a resistência francesa), inclui, momentos momentos memoráveis nos estúdios de Meliés, delirantes, divertidos e nostálgicos. É um filme «feito para crianças» que arrasa a maior parte dos filmes «feitos para adultos». Apesar de todos os defeitos que lhe possam encontrar, não percam. É muito mais do que se pode dizer sobre as grandes produções americanas nos dias de hoje.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Edgar Hoover: o filme
Fui ver outra biografia (biopic como dizem) de J. Edgar Hoover. O filme é melhor do que o biopic de Tatcher , o personagem é muito mais detestável. A direcção do Clint Eastwood e o excelente argumento ajudam a olhar para a América do século XX e para a história triste deste personagem demasiado humano, demasiado mesquinho. Hoover quis fazer uma lenda sobre si próprio enquanto alimentava uma carreira de escutas secretas , devassas da vida privada e perseguição de todos os que lhe pudessem fazer sombra. A história da fundação do FBI exibe os seis lados mais sombrios inclusive principlamente no plano político. Intelectualmente honesto até porque o realizador tem tendências conservadoras. As interpretações não são comparáveis às de Meryl Streep mas têm um nível bastante bom. Leonardo DiCaprio já é muito mais do que uma carinha laroca como era no Titanic. E está bem rodeado.
domingo, 12 de fevereiro de 2012

Três grandes livros sobre a Guerra Civil de Espanha. Três escritores viveram os acontecimentos de modos diferentes.
Orwell era um homem de esquerda que desconfiava dos comunistas e descreve com grande rigor intelectual as divisões fraticidas entre as força que lutavam do lado republicano. A sua apreciação das atitudes do PCE já adivinham 1984 e Animal's Farm.
Marlaux era um comunista que trabalhava como Komintern e admirava a disciplina partidária dos comunistas.Mais tarde foi Ministro de de Gaulle.
Bernanos era integralista, monárquico, leitor de Maurras, ideólogo da extrema - direita francesa e tinha um filho nas tropas franquistas. Com grande seriedade, Bernanos mostra a sua repulsa pelos massacres dos franquistas que testemunha quando se desloca a Espanha na presunção de que ia apoiar "aquela gente", como lhes passou a chamar. É o livro de um homem traído pelos seus ideais. Paradoxalmente, é o que dá a imagem mais terrível do General Franco
Três homens apanhados pela História no laboratório ibérico da II Guerra.
Como só os vencedores foram absolvidos pelo regime, escrevo sobre estes livros a pensar na injustiça cometida sobre Baltazar Garçón.
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Pietá Negra
A pietá muçulmana é comovente, como toda a dor das mães. Mas esta pietá envolta em negro lembra-me outras dores para além da dor imediata da sua perda: a da condição femininina no mundo muçulmano. Acho que a religião em geral não lidou bem com as mulheres, apesar da posição central de Maria no mundo cristão.. Mas o mundo muçulmano acentuou este lado discriminatório.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Um profissional tranquilo
No jogo com o Nacional, Rinaudo entrou com campo com a garra de um jogador sem mágoas físicas. Chegar de uma lesão prolongada, entregar-se ao jogo e marcar um golo, em campo rival e num colectivo psicologicamente abalado, revela uma determinação invulgar. Ainda por cima, vinda de um jovem que diz não apreciar a velocidade do ambiente envolvente do futebol (as celebridades, o stress da fama), que apresenta um perfil sóbrio de quem tudo encara ( as lesões e os triunfos) como se fossem uma naturalidade da sua profissão.
Sou sportinguista e, claro, podem dizer que esta apreciação resulta apenas dessa circunstância. Conheço benfiquistas acérrimos e portistas empedernidos que pensam o mesmo, talvez sem o mesmo ardor. Rinaudo será tudo menos «piegas».
Porém, este exemplo não vale para o mercado laboral nem para extrair metáforas sociais. Rinaudo ganha 480mil euros por ano. Depois da retirada, terá uma almofada mais do que generosa para relançar outros voos quando tiver apenas trinta e pucos anos. O facto de ser um profissional que honra o seu compromisso só lhe fica bem. E um exemplo positivo mas numa carreira de excepção.
No jogo com o Nacional, Rinaudo entrou com campo com a garra de um jogador sem mágoas físicas. Chegar de uma lesão prolongada, entregar-se ao jogo e marcar um golo, em campo rival e num colectivo psicologicamente abalado, revela uma determinação invulgar. Ainda por cima, vinda de um jovem que diz não apreciar a velocidade do ambiente envolvente do futebol (as celebridades, o stress da fama), que apresenta um perfil sóbrio de quem tudo encara ( as lesões e os triunfos) como se fossem uma naturalidade da sua profissão.
Sou sportinguista e, claro, podem dizer que esta apreciação resulta apenas dessa circunstância. Conheço benfiquistas acérrimos e portistas empedernidos que pensam o mesmo, talvez sem o mesmo ardor. Rinaudo será tudo menos «piegas».
Porém, este exemplo não vale para o mercado laboral nem para extrair metáforas sociais. Rinaudo ganha 480mil euros por ano. Depois da retirada, terá uma almofada mais do que generosa para relançar outros voos quando tiver apenas trinta e pucos anos. O facto de ser um profissional que honra o seu compromisso só lhe fica bem. E um exemplo positivo mas numa carreira de excepção.
Os cochichos dos Ministros das Finanças
Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes. Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos, a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar. Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo. Também é uma opção política e ideológica (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível". Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa, o mesmo Governo começou a falar a a uma só voz acentuando que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.
Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes. Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos, a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar. Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo. Também é uma opção política e ideológica (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível". Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa, o mesmo Governo começou a falar a a uma só voz acentuando que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A mensagem de Francisco Pimentel ao PSD da Covilhã publicada esta semana no JF merecia ser ouvida e comentada porque, neste estado de torpor induzida pela toma colectiva de chá de valeriana, continua irreverente e lúcido.
Francisco Pimentel louva o empreendorismo dos industriais covilhanenses e desmente algumas ideias feitas. Por testemunho e algum estudo, sei de dirigentes sindicais e de operários dos anos 20 que se tornaram empresários. Muitos destes industriais vieram do nada e pouco mais possuíam do que boas ideias no tempo certo .Alguns tinham coragem politica e afirmavam a sua autonomia perante o poder politico. Muitos não obedeciam ao ruralismo ideológico que emanava de Santa Comba. .
Porém, também é preciso lembrar um operariado bem informado e participativo em que o «espírito de classe» não contrariava a ambição individual. E convirá, também, não esquecer que a pujança da Covilhã enquanto cidade se fazia com esquecimento das zonas rurais do Concelho,donde provinham os migrantes internos e externos. A Covilhã do século XX só chegou ao resto do Concelho, depois do 25 de Abril, com intervenção pública.
Onde estou em desacordo é que a retoma da pujança da Covilhã se possa dever a este governo do PSD. O empreendorismo e as sociedades civis não dependem só de um Governo, de nenhum. Bem podiam ter esperado os industriais da Covilhã. Salazar gostava tanto de empreendedores como Maomé de toucinho. Por outro lado, o que aconteceu até aos anos 80 nesta cidade é irrepetível. O interior de hoje só sobreviverá de duas formas: quando as grandes cidades se tornarem tão insuportáveis que as próprias populações ou parte delas invertam o sentido migratório e quando se atraírem capitais. Não me parece que qualquer das duas coisas se verifique sem alguma forma de esforço público.
A sociedade civil não é um produto de emanação metafísica. Para além da vontade, é preciso a esperança e o ambiente cultural , demográfico e económico que a favoreçam. É preciso circulação de dinheiro. Com a receita adoptada, isso leva muito tempo. Ora, como dizia o velho Keynes, a longo prazo, estamos mortos. Pior ainda, sem nascimentos que nos substituam.
A Covilhã precisa de uma sustentabilidade económica que vá alem do sector dos serviços. A construção civil está parada. A desertificação cresce. O ensino superior está em estagnação. O turismo precisa de uma abordagem mais ambiciosa . Não se compadece com birras . Houve uma altura em que receei que surgissem mais entidades de turismo do que turistas. Agora,a decisão fica em Coimbra. Ora suspeito, que na CCDR sabem menos sobre a Covilhã do que Lisboa. Vale a pena ver esta rota de museus da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro: não há referência a um espaço museológico na Covilhã-Cidade. Nem o Museu dos Lanífícios já premiado várias vezes. Há referência à capela de Santo Cristo do Teixoso, ao Museu Judaico de Belmonte e ao Museu de Arte Sacra do Fundão. Ora estas últimas são referências correctas e ainda bem que são feitas. As omissões é que não são de cinco estrelas.
Diagnóstico social da Covilhã: a crise não dorme. Apesar de estranhar as ausência de algumas entidades no diagnóstico social da Covilhã- sindicatos, associações patronais, Centro de Emprego, UBI não são citados na notícia do Jornal do Fundão sobre o diagnóstico social da Covilhã- sente-se que não há espaço para optimismos: pobreza, desemprego, baixa qualificação. Acrescentaria que, no essencial, estas matérias não são referidas nos debates intra e inter -partidários sobre escolha de candidatos. Numa carta que escrevi perguntei pelo debate de ideias. Em abono da verdade, também Francisco Pimentel tem aludido a estas questões. De resto é o silêncio.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Em Portugal começou a florir um discurso contra a pieguice que sonha com um português liberal, empreendedor e musculado que , nas conversas de esquina, manda impropérios e compara o Estado Social à sopa dos pobres. Espero que os que assim falam contra as pieguices mostrem o seu curriculum antes de se darem ares de matador. Para que não haja suspeitas de favor estatal ou partidário ou de arrivismo protegido por compadrio. Espero que não considerem nem a cultura nem o Ensino Público nem o Serviço Nacional de Saúde uma pieguice.
O Mariacci começou por ser uma personagem lendário de um México violento .revolucionário. Nos filmes de Roberto Rodriguez tornou-metáfora, talvez abusiva, do macho latino silencioso, de olhar matador, rápido na pistola e firme nas decisões. Era a versão hispânica dos personagens de Clint Eastwood e serviu de imaginário a alguns liberais que olham para a sociedade como uma espécie de última fronteira do Oeste Selvagem.
Espero que esta forma de Mariacci luso não esconda um arrivista gelatinoso. Há matadores que só são ferozes quando estão respaldados por uma entidade externa, um xerife de outra cidade.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
As redes sociais
Os indignados e alternativos têm sido motor de novas formas de comunicação politica. O Occupy Wal Street montou a sua própria forma de comunicar.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Uma viagem pessoal a Woody Allen e a Paris
Quando cheguei a Paris,já pouco restava dos meus imaginários transformados em turismo. Vou lendo o Camus e o Vian, algum Marlaux. Gosto de ouvir Sidney Bechet, Brel e Bécaud. Também gosto de Débussy, Ravel e Satie. Os impressionistas e os cubistas,bem como algumas vanguardas desses anos fazem parte dos meus quadros favoritos. Porém, a tal magia parisiense nunca me tocou exactamente por ser apresentado como uma espécie de museu cruzado com postal turístico. Como se não bastasse isso, sou já da mesma geração daqueles franceses que tinham por referência a América: os esquerdistas e anarquistas seduzidos pelo jazz, pela pop-arte e pelo cinema negro. Os rapazes da Nouvelle Vague. Até a Dolce Vitta de Fellini, um italiano perfeito, um filme maior, prestava uma homenagem indireta a uma certa americanização da Europa. Uma boa parte do cinema europeu nunca fugiu da América.
Houve escritores que me fizeram visitar Paris de entre as duas guerras. Eram todos americanos e nenhum francês. De entre eles, destacou-se Hamingway. O velho não está na moda e tem livros sobrevalorizados, esquecidos e menores. Porém, não há leitor com gosto que resista a alguns contos, ao seu primeiro romance ( The Sun Also Rises- Fiesta ) e a um dos seus últimos: A Movieble Feast, traduzido entre nós como Paris é uma festa. Nos contos, Hem ombreia com a melhor tradição clássica americana. Quanto aos dois textos maiores são um retrato belíssimo de como uma geração de emigrantes viu Paris. São exemplares e ombreiam com Fitzgerald, este mais famoso e menos castigado pelo tempo e pelas modas. Movieble Feast tem uma escrita enxuta,elegante e conversas fantasticas com Ezra Pound, Gertrude Steim, Fitzgerald e Silvia Plat. Vem tudo isto a propósito, porque ontem tive finalmente tempo e vontade de ver "Meia Noite em Paris". Sendo admirador de algus filmes de Woody Allen , era natural que tivesse feito isto antes. Porem, tinha medo que Woody Allen se perdesse numa imagem nostálgica da boémia da Rive Gauche.
Ora o velho judeu é rijo e autocrítico como só um judeu pode ser em relação aos seus próprios afectos. De acordo com os estereótipos, há três tipos de judeus: os que deixam crescer longas barbas, emigram do Leste, são ortodoxos, fanáticos e anti-árabes; os judeus de anéis nos dedos e nariz adunco que conspiram pela dominação no mundo; os judeus do Kibutz herdeiros do socialismo sionista que também acreditam no Povo Eleito. Tudo isto é de um reducionismo pobre e ocioso mas, como todos os estereótipos, são auto-confirmativos, logo é inutil discuti-los. Há mais dois tipos de judeus: os que não se parecem com judeus e raramente se lembram que o são - donde é logo discutível que o sejam. E um um útimo tipo: o judeu crítico, desenraizado e cosmopolita que ri dos seus próprios afectos e tradições. Woody Allen pertence a este último tipo. Já o vimos caricaturar rabis, circuncisões, rituais de casamento e comida Kosher com uma mordacidade que só um judeu teria.
Porém,Woody Allen não se fica por Brooklin. Allen é perito em desconstruir tudo o que gosta: o amor, o teatro, o cinema de Bergman, Sakespeare, Tchecov, Paris, a intelectualidade nova-iorquina e até Deus, a moral e a Arte. Ele gosta dessas coisas, reserva-lhes uma certa dose de ternura ocasional mas ao mesmo tempo precisa de distanciar-se delas com uma mordacidade dolorosa.
"Maiea Noite em Paris" corria o risco sério de se tornar um pastelão para turistas Porém, ele sabe do métier. A reconstrução do imaginário da geração perdida é tão eficaz como a desconstrução. Ora estamos à beira de uma nostalgia kitsch, oraresvalamos para o nonsense e para o ridículo. Scott Fitzgerald e Zelda são exactamente como as fotos de Scott Fizgerald e Zelda e Hemingway declama, com cara de pau, trechos inteiros de passagens de textos seus sobre a sua concepção de literatura, a importância das touradas e a virilidade. Buñuel é chapado ele próprio e Dali irrita. Algumas cenas são inspiradas no Movieble Feast de Hemingway. . Woody Allen explora a nostalgia do imaginário, adere a essa nostalgia, e depois diz através de um personagem : quem acredita naquilo é um bando de pilulas que sofre de tumor cerebral. Depois, introduz um final redentor mas propositadamente banal e conscientemente ambíguo: Paris é óptimo para se e ser jovem e escrever romances e viver numas água-furtadas com a dona de um alfarrabista que gosta de Cole Porter. Pode ser irritante mas é feito com bom gosto e talento. Não sei se Woody Allen é um grande realizador (embora Annie Hall, Manhattan, Crimes e Escapadelas possam indiciar que tenha sido ) mas é um entertainer fabuloso..
Já agora a 1º foto é da promoção do filme. O toque de impressionismo vangoghiano sobre os céus de Paris é tão interessante quanto oportunista. A segunda foto remonta à primeira leitura que fiz de Hemingway: "The Sun Also Rises" (Fiesta) para a colecção de Bolso Livros RTP. As duas senhoras são Gertrude Stein e Alice Tolkien e a última imagem é de Scoot Futzgerald e Hemingway no filme. Por baixo: Picasso e Hemingay em Paris. Que cromos!
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Empresas saídas das universidades são cada vez mais
Diz o Público: " Os pequenos ou micronegócios da inovação estão a multiplicar-se no país. São pequenos ou micronegócios em fase de arranque intimamente ligados à inovação e, na maioria, "filhos" das universidades. Chamam-lhes spin-offs ou start-ups e são cada vez mais em Portugal. Só na Universidade do Porto (UP), esta promessa de negócio reunia cinco projectos em 2007 - hoje já soma 106. Mas há mais exemplos. . "
Acredito que que estes modelos serão uma das formas de as Universidades intervirem no tecido social que a rodeia. As Universidades são um lugar onde é possível inovar e dirigir a investigação para o desenvolvimento económico, social e comunitário. Claro que isso implica uma envolvência com o ambiente, nomeadamente institucional, que raramente é compreendido nomeadamente pelas autarquias.
PS combate caciquismo interno e propõe directas para candidato
A actual direcção do PS vai revelando um dos seus lados mais positivos no aprofundamento da democracia interna.
Poderá existir um modelo mais autónomo de escolha dos candidatos às autarquias. A palavra "directas " não é mencionada mas pode-se adivinhar, embora existam modelos muito diferenciados de consulta dos militantes.
Alguns dos desenvolvimentos aos quais assisti reforçam a validade de algumas destas sugestões: A participação dos militantes permitiria a) o confronto de de ideias; b) a apresentação de alternativas claras; c) consistiria um rude golpe nos sindicatos de voto e nalgumas formas de caciquismo bacoco.
E, claro, o Orçamento Participativo,ou seja a possibilidade de alocar recursos financeiros através da participação colectiva como se faz em Câmaras de todo o país de todas as facções politicas.
Um dos problemas portugueses é a ausência de sociedade civil.Em conversa acalorada com um amigo que apoia este este Governo este disse-me que o liberalismo ajuda a estimular a independência do Estado. Eu acredito que Portugal deve minimizar a dependência do Estado. Porém, não é através do salve-se quem puder liberal mas através do alargamento de práticas deliberativas e participadas de decisão. É um caminho difícil e com muitos riscos. Como tudo o que vale a pena.
Poderá existir um modelo mais autónomo de escolha dos candidatos às autarquias. A palavra "directas " não é mencionada mas pode-se adivinhar, embora existam modelos muito diferenciados de consulta dos militantes.
Alguns dos desenvolvimentos aos quais assisti reforçam a validade de algumas destas sugestões: A participação dos militantes permitiria a) o confronto de de ideias; b) a apresentação de alternativas claras; c) consistiria um rude golpe nos sindicatos de voto e nalgumas formas de caciquismo bacoco.
E, claro, o Orçamento Participativo,ou seja a possibilidade de alocar recursos financeiros através da participação colectiva como se faz em Câmaras de todo o país de todas as facções politicas.
Um dos problemas portugueses é a ausência de sociedade civil.Em conversa acalorada com um amigo que apoia este este Governo este disse-me que o liberalismo ajuda a estimular a independência do Estado. Eu acredito que Portugal deve minimizar a dependência do Estado. Porém, não é através do salve-se quem puder liberal mas através do alargamento de práticas deliberativas e participadas de decisão. É um caminho difícil e com muitos riscos. Como tudo o que vale a pena.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A violência
É absolutamente impensável a quantidade de violência que se pode colocar nas mais insignificantes actividades humanas. O Egito incendiou a alma num jogo de bola.
E há a violência verbal e escrita. O espaço público de uma forma geral está menos conceptual e mais irracional. Há comentadores que tem a a dimensão de um mosquito e o fanatismo de um talibã. A democracia fez-se com base no argumento como forma de dirimir o conflito, sem recurso à guerra. É uma enorme exigência para a razão.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Parado na estação deserta....
As estações podem ser o lugar da mais trágica solidão, penso eu. Ali se encontram tristes a sonhar com o sonho que não se realizou: o Sebastião que não veio, o livro que não escreveram, o mestrado que nunca mais terminava, o partido que não cresceu, a pequenez sempre a encolher, o comboio que nunca mais parte. Pra ali estão à espera da boleia ou da gratidão pela encomenda.












