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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os cochichos dos Ministros das Finanças

Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria  linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes.  Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
  Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos,  a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso   Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall  e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar.  Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo.  Também é uma opção política e ideológica   (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos  escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível".  Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam  que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa,  o mesmo  Governo começou a falar a a uma só voz acentuando  que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.

Sem comentários:

Qual dos Ministros é mais deficitário no uso dos neurónios?

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