Tradução

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

HUGO

É preciso, por vezes, meia dúzia de anos para sabermos se um livro ou filme eram uma obra-prima. Há quem diga que Hugo é uma obra-prima. Não vou tão longe. Tem uma direcção artística  excelente, um uso extraordinário da tecnologia de 3D,  excelentes actores em papéis secundários e principais, tem um argumento com alguns buracos desculpáveis e tem, sobretudo, um genuíno amor ao cinema. Para além das referências à cultura popular (de Jules Verne ao Hallo, Hallo, a fantática série inglesa sobre a resistência francesa), inclui, momentos momentos memoráveis nos estúdios de Meliés, delirantes, divertidos e nostálgicos. É um filme «feito para crianças» que arrasa a maior parte dos filmes «feitos para adultos». Apesar de todos os defeitos que lhe possam encontrar, não percam. É muito mais do que se pode dizer sobre as grandes produções americanas nos dias de hoje.

domingo, 12 de fevereiro de 2012







Três grandes livros sobre a Guerra Civil de Espanha. Três escritores viveram os acontecimentos de modos diferentes.
Orwell era um homem de esquerda que desconfiava dos comunistas e descreve com grande rigor intelectual as divisões fraticidas entre as força que lutavam do lado republicano. A sua apreciação das atitudes do PCE já adivinham 1984 e Animal's Farm.

Marlaux era um comunista que trabalhava como Komintern e admirava a disciplina partidária dos  comunistas.Mais tarde foi Ministro de de Gaulle.

Bernanos era integralista, monárquico, leitor de Maurras, ideólogo da extrema - direita francesa e tinha um filho nas tropas franquistas. Com grande seriedade, Bernanos mostra a sua repulsa pelos massacres dos franquistas que testemunha quando se desloca a Espanha na presunção de que ia apoiar "aquela gente", como lhes passou a chamar.  É o livro de um homem traído pelos  seus ideais. Paradoxalmente, é o que dá a imagem mais terrível do General Franco 
Três homens apanhados pela História no laboratório ibérico  da II Guerra.  
Como só os vencedores foram absolvidos pelo regime, escrevo sobre estes livros a pensar na injustiça cometida sobre Baltazar Garçón.

 . 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os cochichos dos Ministros das Finanças

Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria  linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes.  Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
  Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos,  a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso   Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall  e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar.  Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo.  Também é uma opção política e ideológica   (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos  escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível".  Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam  que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa,  o mesmo  Governo começou a falar a a uma só voz acentuando  que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

 Em Portugal começou a florir um discurso contra a pieguice que sonha com um português  liberal, empreendedor e musculado  que , nas conversas de esquina, manda impropérios e  compara o Estado Social à sopa dos pobres.   Espero que os que assim falam  contra as pieguices mostrem o seu curriculum antes de se darem ares de matador.  Para que não haja suspeitas  de favor estatal ou partidário ou de arrivismo protegido por compadrio. Espero que não considerem nem  a cultura nem o Ensino Público nem o Serviço Nacional de Saúde uma pieguice.
O Mariacci começou por ser uma personagem lendário de um México violento .revolucionário. Nos filmes de Roberto Rodriguez tornou-metáfora, talvez abusiva, do macho latino silencioso, de olhar matador, rápido na pistola e firme nas decisões. Era a versão hispânica dos personagens de Clint Eastwood e serviu de imaginário a alguns liberais que olham para a sociedade como uma espécie de última fronteira do Oeste Selvagem.
Espero que esta forma de Mariacci luso não esconda um arrivista gelatinoso.   Há matadores que só são ferozes quando estão respaldados por uma entidade externa, um xerife de outra cidade.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A violência


É absolutamente impensável a quantidade de violência que se pode colocar nas mais insignificantes actividades humanas.  O Egito incendiou a alma num jogo de bola.
E há a violência verbal e escrita. O espaço público  de uma forma geral está menos conceptual e mais irracional.   Há comentadores  que tem a  a dimensão de um mosquito e o fanatismo de um talibã.  A democracia fez-se com base no argumento como forma de dirimir o conflito, sem recurso à guerra.  É uma enorme exigência para a razão.

Qual dos Ministros é mais deficitário no uso dos neurónios?

Publico.pt - Cultura

Pesquisar neste blogue

Mensagens populares

Publico.pt - Política