segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Edgar Hoover: o filme
Fui ver outra biografia (biopic como dizem) de J. Edgar Hoover. O filme é melhor do que o biopic de Tatcher , o personagem é muito mais detestável. A direcção do Clint Eastwood e o excelente argumento ajudam a olhar para a América do século XX e para a história triste deste personagem demasiado humano, demasiado mesquinho. Hoover quis fazer uma lenda sobre si próprio enquanto alimentava uma carreira de escutas secretas , devassas da vida privada e perseguição de todos os que lhe pudessem fazer sombra. A história da fundação do FBI exibe os seis lados mais sombrios inclusive principlamente no plano político. Intelectualmente honesto até porque o realizador tem tendências conservadoras. As interpretações não são comparáveis às de Meryl Streep mas têm um nível bastante bom. Leonardo DiCaprio já é muito mais do que uma carinha laroca como era no Titanic. E está bem rodeado.
domingo, 12 de fevereiro de 2012

Três grandes livros sobre a Guerra Civil de Espanha. Três escritores viveram os acontecimentos de modos diferentes.
Orwell era um homem de esquerda que desconfiava dos comunistas e descreve com grande rigor intelectual as divisões fraticidas entre as força que lutavam do lado republicano. A sua apreciação das atitudes do PCE já adivinham 1984 e Animal's Farm.
Marlaux era um comunista que trabalhava como Komintern e admirava a disciplina partidária dos comunistas.Mais tarde foi Ministro de de Gaulle.
Bernanos era integralista, monárquico, leitor de Maurras, ideólogo da extrema - direita francesa e tinha um filho nas tropas franquistas. Com grande seriedade, Bernanos mostra a sua repulsa pelos massacres dos franquistas que testemunha quando se desloca a Espanha na presunção de que ia apoiar "aquela gente", como lhes passou a chamar. É o livro de um homem traído pelos seus ideais. Paradoxalmente, é o que dá a imagem mais terrível do General Franco
Três homens apanhados pela História no laboratório ibérico da II Guerra.
Como só os vencedores foram absolvidos pelo regime, escrevo sobre estes livros a pensar na injustiça cometida sobre Baltazar Garçón.
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Pietá Negra
A pietá muçulmana é comovente, como toda a dor das mães. Mas esta pietá envolta em negro lembra-me outras dores para além da dor imediata da sua perda: a da condição femininina no mundo muçulmano. Acho que a religião em geral não lidou bem com as mulheres, apesar da posição central de Maria no mundo cristão.. Mas o mundo muçulmano acentuou este lado discriminatório.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Um profissional tranquilo
No jogo com o Nacional, Rinaudo entrou com campo com a garra de um jogador sem mágoas físicas. Chegar de uma lesão prolongada, entregar-se ao jogo e marcar um golo, em campo rival e num colectivo psicologicamente abalado, revela uma determinação invulgar. Ainda por cima, vinda de um jovem que diz não apreciar a velocidade do ambiente envolvente do futebol (as celebridades, o stress da fama), que apresenta um perfil sóbrio de quem tudo encara ( as lesões e os triunfos) como se fossem uma naturalidade da sua profissão.
Sou sportinguista e, claro, podem dizer que esta apreciação resulta apenas dessa circunstância. Conheço benfiquistas acérrimos e portistas empedernidos que pensam o mesmo, talvez sem o mesmo ardor. Rinaudo será tudo menos «piegas».
Porém, este exemplo não vale para o mercado laboral nem para extrair metáforas sociais. Rinaudo ganha 480mil euros por ano. Depois da retirada, terá uma almofada mais do que generosa para relançar outros voos quando tiver apenas trinta e pucos anos. O facto de ser um profissional que honra o seu compromisso só lhe fica bem. E um exemplo positivo mas numa carreira de excepção.
No jogo com o Nacional, Rinaudo entrou com campo com a garra de um jogador sem mágoas físicas. Chegar de uma lesão prolongada, entregar-se ao jogo e marcar um golo, em campo rival e num colectivo psicologicamente abalado, revela uma determinação invulgar. Ainda por cima, vinda de um jovem que diz não apreciar a velocidade do ambiente envolvente do futebol (as celebridades, o stress da fama), que apresenta um perfil sóbrio de quem tudo encara ( as lesões e os triunfos) como se fossem uma naturalidade da sua profissão.
Sou sportinguista e, claro, podem dizer que esta apreciação resulta apenas dessa circunstância. Conheço benfiquistas acérrimos e portistas empedernidos que pensam o mesmo, talvez sem o mesmo ardor. Rinaudo será tudo menos «piegas».
Porém, este exemplo não vale para o mercado laboral nem para extrair metáforas sociais. Rinaudo ganha 480mil euros por ano. Depois da retirada, terá uma almofada mais do que generosa para relançar outros voos quando tiver apenas trinta e pucos anos. O facto de ser um profissional que honra o seu compromisso só lhe fica bem. E um exemplo positivo mas numa carreira de excepção.
Os cochichos dos Ministros das Finanças
Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes. Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos, a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar. Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo. Também é uma opção política e ideológica (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível". Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa, o mesmo Governo começou a falar a a uma só voz acentuando que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.
Por vezes quando andamos a explicar aos alunos o que são frames - um termo que se usa muito na investigação em comunicação - acaba por se encontrar formas de descodificar a nossa própria linguagem académica: "Homem, onde uns vêem uma coisa outros vêm outra", disse uma vez, um pouco impaciente. Um exemplo conhecido é o do copo meio cheio e meio vazio ou ainda o do jornal que noticiou que o medicamento salvou 50% dos doentes confrontado com outro que dizia que matara 50% dos mesmos pacientes. Na verdade, o fenómeno é mais complexo. Por exemplo, em televisão pode-se usar, ao filmar a mesma cena, uma perspectiva que escolhe alguns elementos e deixa de fora outros, o que, obviamente, gera mensagens diferentes. Frames significa enquadramentos, está claro.Não vou arengar mais sobre o tema que tem muitos detalhes que não vêm ao caso.
Um belo exemplo é dos cochichos dos Ministros das Finanças: "olhe, vocês são uns rapazes direitinhos, a gente até está disposta a fazer reajustamentos no programa de ajuda financeira a Portugal". dizia um. "Obrigadinho", dizia o outro, muito solícito. (Ainda equacionei a possibilidade de sugerir ao nosso Ministro que levasse uma cesta de Pastéis de Molho da Covilhã ao Ministro das Finanças alemão. Saia de lá com um plano Marshall e subsídios a fundo perdido)
Consequência, o Ministro não gostou que a sugestão fosse mencionada em público e , claro, veio reafirmar a dedicação do Governo às sugestões da Troika. "A gente não quer cá facilidades", disse mais ou menos o Doutor Gaspar. Parecia claro que a rigidez das medidas de austeridade afinal também tem origem no Governo. Também é uma opção política e ideológica (Como muito bem escreve o "I", a opinião pública alemã, que vota e escolhe Governos, gosta menos da ideia de um reajustamento do que os mercados que parecem não ver a ideia com maus olhos). Durante uns minutos, quiçá um dia, o Ministro das Finanças parecia um daqueles gatos escondidos, com o rabinho de fora.
Eis senão que entra em cena uma outra interpretação habilidosa: "Ná", diu o Ministro Relvas com serenos olhos cândidos, " o que o alemão quis fazer foi um elogio ás nossas politicas. Nem vejo outra interpretação possível". Numa televisão ao lado, o re-aparecido Ministro dos Negócios Estrangeiros repetia ipsis verbis a mesma explicação. Para quem ande atento, a mensagem tinha sido delineada e bem coordenada. Em vez de explicar as palavras do titular alemão o melhor será dizer que ele nos elogiou.
As mesmas palavras suscitaram interpretações diferentes. Enquanto as oposições enfatizavam que o Governo pode estar a ser mais papista do que o papa, o mesmo Governo começou a falar a a uma só voz acentuando que o elogio significava que "estamos no bom caminho". Delineados os argumentos,é só garantir quem tem mais acesso aos meios de comunicação social.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A mensagem de Francisco Pimentel ao PSD da Covilhã publicada esta semana no JF merecia ser ouvida e comentada porque, neste estado de torpor induzida pela toma colectiva de chá de valeriana, continua irreverente e lúcido.
Francisco Pimentel louva o empreendorismo dos industriais covilhanenses e desmente algumas ideias feitas. Por testemunho e algum estudo, sei de dirigentes sindicais e de operários dos anos 20 que se tornaram empresários. Muitos destes industriais vieram do nada e pouco mais possuíam do que boas ideias no tempo certo .Alguns tinham coragem politica e afirmavam a sua autonomia perante o poder politico. Muitos não obedeciam ao ruralismo ideológico que emanava de Santa Comba. .
Porém, também é preciso lembrar um operariado bem informado e participativo em que o «espírito de classe» não contrariava a ambição individual. E convirá, também, não esquecer que a pujança da Covilhã enquanto cidade se fazia com esquecimento das zonas rurais do Concelho,donde provinham os migrantes internos e externos. A Covilhã do século XX só chegou ao resto do Concelho, depois do 25 de Abril, com intervenção pública.
Onde estou em desacordo é que a retoma da pujança da Covilhã se possa dever a este governo do PSD. O empreendorismo e as sociedades civis não dependem só de um Governo, de nenhum. Bem podiam ter esperado os industriais da Covilhã. Salazar gostava tanto de empreendedores como Maomé de toucinho. Por outro lado, o que aconteceu até aos anos 80 nesta cidade é irrepetível. O interior de hoje só sobreviverá de duas formas: quando as grandes cidades se tornarem tão insuportáveis que as próprias populações ou parte delas invertam o sentido migratório e quando se atraírem capitais. Não me parece que qualquer das duas coisas se verifique sem alguma forma de esforço público.
A sociedade civil não é um produto de emanação metafísica. Para além da vontade, é preciso a esperança e o ambiente cultural , demográfico e económico que a favoreçam. É preciso circulação de dinheiro. Com a receita adoptada, isso leva muito tempo. Ora, como dizia o velho Keynes, a longo prazo, estamos mortos. Pior ainda, sem nascimentos que nos substituam.
A Covilhã precisa de uma sustentabilidade económica que vá alem do sector dos serviços. A construção civil está parada. A desertificação cresce. O ensino superior está em estagnação. O turismo precisa de uma abordagem mais ambiciosa . Não se compadece com birras . Houve uma altura em que receei que surgissem mais entidades de turismo do que turistas. Agora,a decisão fica em Coimbra. Ora suspeito, que na CCDR sabem menos sobre a Covilhã do que Lisboa. Vale a pena ver esta rota de museus da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro: não há referência a um espaço museológico na Covilhã-Cidade. Nem o Museu dos Lanífícios já premiado várias vezes. Há referência à capela de Santo Cristo do Teixoso, ao Museu Judaico de Belmonte e ao Museu de Arte Sacra do Fundão. Ora estas últimas são referências correctas e ainda bem que são feitas. As omissões é que não são de cinco estrelas.





