Tradução

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

 Em Portugal começou a florir um discurso contra a pieguice que sonha com um português  liberal, empreendedor e musculado  que , nas conversas de esquina, manda impropérios e  compara o Estado Social à sopa dos pobres.   Espero que os que assim falam  contra as pieguices mostrem o seu curriculum antes de se darem ares de matador.  Para que não haja suspeitas  de favor estatal ou partidário ou de arrivismo protegido por compadrio. Espero que não considerem nem  a cultura nem o Ensino Público nem o Serviço Nacional de Saúde uma pieguice.
O Mariacci começou por ser uma personagem lendário de um México violento .revolucionário. Nos filmes de Roberto Rodriguez tornou-metáfora, talvez abusiva, do macho latino silencioso, de olhar matador, rápido na pistola e firme nas decisões. Era a versão hispânica dos personagens de Clint Eastwood e serviu de imaginário a alguns liberais que olham para a sociedade como uma espécie de última fronteira do Oeste Selvagem.
Espero que esta forma de Mariacci luso não esconda um arrivista gelatinoso.   Há matadores que só são ferozes quando estão respaldados por uma entidade externa, um xerife de outra cidade.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A violência


É absolutamente impensável a quantidade de violência que se pode colocar nas mais insignificantes actividades humanas.  O Egito incendiou a alma num jogo de bola.
E há a violência verbal e escrita. O espaço público  de uma forma geral está menos conceptual e mais irracional.   Há comentadores  que tem a  a dimensão de um mosquito e o fanatismo de um talibã.  A democracia fez-se com base no argumento como forma de dirimir o conflito, sem recurso à guerra.  É uma enorme exigência para a razão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Parado na estação deserta....

As estações podem ser o lugar da mais trágica solidão, penso eu. Ali se encontram tristes a sonhar com o sonho que não se realizou: o Sebastião que não veio, o livro que não escreveram, o mestrado que nunca mais terminava, o partido que não cresceu,  a pequenez sempre a encolher, o comboio que nunca mais parte. Pra ali estão à espera da boleia ou da gratidão pela encomenda.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

As aventuras do Governo no Reino das redes sociais.

O 1º Ministro entrou nas redes sociais. A página de Facebook chama-se O meu movimento.Aqui há uns tempos assisti a algumas observações empíricas sobre páginas sociais promovidas por organizações partidárias de juventude e organizações expontâneas de causas e movimentos cívicos. As primeiras caracterizavam-se pelo deserto de ideias e pela celebração de uma ritual que um saudoso 1º Ministro ( não, não era o meu conterrâneo José Sócrates) chamava de "Vivas à Maria e ao Manel." As segundas tinham ideias mas estavam eivadas de um derrotismo cínico que se podia categorizar, igualmente de modo jocoso: "Abaixo qualquer Maria e qualquer Manel". A celebração e a indignação são itens políticos. Porém, serão úteis?  Entre a propaganda e o derrotismo há espaço para outra coisa?  Duvido do estilo da página Facebook  do 1º Ministro . O simples facto de se auto-intitular de governamental ( há muitas formas de dizer o mesmo) e se colocar numa postura de informalidade pouco convincente revela que a classe politica não sabe usar a difícil arte de trabalhar nas redes sociais. Eu também não disponho dessa arte mas recomendo mais criatividade. O Facebook é um ambiente ingrato para a politica institucional.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Spin Doctors: nas sombras da política

Como investigador de Comunicação Politica,  o fenómeno do spin doctoring interessa-me. Os spin doctors são assessores de comunicação geralmente ocultos que  geram nos media informação favorável para as entidades com que trabalham e transmitem informação que prejudica os adversários dessas identidades. Estrela Serrano, Professora da ESCS dedica algum tempo à investigação deste interessante fenómeno e diz que ele se pode induzir a partir de notícias não atribuídas. Se as fontes  não se conhecem, então quem gerou  a notícia? Descontada a hipótese de ela resultar de uma aprofundada investigação jornalística ( o que, a ter-se verificado, se notaria na existência de fontes identificáveis), descontada também  a hipótese de fenómenos paranormais de propagação telepática da informação,sobram  eles os spins, trabalhando na sombra propaganda facts políticos.
Contrariamente ao que pensa um distinto investigador meu antigo aluno, que dá pelo nome de Helder Prior e, que, para bom nome da UBI, reflecte com muito acerto sobre estes temas, não acredito que o spin se insira no modelo de propaganda. O modelo de propaganda, identificado nos anos 30, implica a existência de arautos bem conhecidos,o matraqueamento macisso das massas com slogans uniformes e claramente intencionais.  Um investigador escocês chamado Brian McNair clama que nós hoje vivemos no modelo comunicacional do caos: as mensagens dos grandes media são descodificadas nas redes sociais, há uma multiplicidade de plataformas é infinita (desde os jornais aos telemóveis e aos Ipads), a televisão por cabo espalha-se pelo mundo. Na Tunísia, o governo ditatorial censurou a internet dentro das suas fronteiras.Porém,os jornalistas da AlJazzer iam buscar os vídeos das manifestações feitos por "amadores" usando telemóveis e passavam-nos no interior da Tunísia, aonde o canal chegava via cabo a 50 % dos lares  daquele país. A mensagem da oposição saía pela porta e entrava pela janela. Dizem que a Câmara da Covilhã exerce um controlo severo  sobre a imprensa e a rádio da Covilhã. Porém, este controlo é curtocicuitado sistematicamente por blogues como este ou o Carpinteira (que até se referiu a mim como um poder fáctico, que obviamente agradeço,mas é manifestamente exagerado)  ou por jornais do concelho vizinho. Por isso, surgem novas profissões: em lugar da boa velha propaganda,aparecem profissões como os spins, gestores de redes sociais e outros. Ou seja, a propaganda e a vontade controlo existem mas já não se desenvolvem num cenário unilateral de propaganda de um único centro de poder: é o universo dos boatos, da contra-informação, das máscaras, dos silêncios geridos e das censuras ocultas. Foi por isso ( e não por egocentrismo) que criei  sempre blogues,personalizados, individuais e com fotografia.  Foi um risco calculado de exposição mas também de auto-responsabilização.
Um caso óbvio de spin é a recente propagação de notícias que dão conta do distanciamento de Cavaco em relação a Passos Coelho e Vitor Gaspar. Espalhados pelo Público e pelo Expresso encontramos os lamentos lancinantes das pessoas associadas a Cavaco Silva contra a euforia ultra-liberal de Coelho, de Vitor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.
Este impeto social democrata do Presidente da República tem três significados, na minha modesta opinião:
a) O Presidente quer desviar as atenções da sua mensagem desastrada sobre as dificuldades que passa com as suas modestas reformas.
b) O Presidente quer ganhar espaço de manobra politica para se distanciar dos duros do PSD, aparecendo como moderador e moderado.
c) Porém, a estratégia comunicacional também é uma estratégia de poder. O Presidente da República não quer ser a rainha da Inglaterra, e quer envolver mais o PS e a UGT neste círculo. Cavaco Silva teve uma estratégia clara: correr com Sócrates, eleger o PSD e presidir a uma maioria politicamente favorável sem nunca deixar de lado a existência de pontes com o PS enquanto almofada de garantia.  Se Gaspar e Coelho falharem,   como as decisões europeias cada vez mais indiciam,  as cadeiras do poder podem transformar-se em cadeiras eléctricas.   A comunicação política não é só marketing e quando alguém manda dizer que se distanciou de alguém, mesmo sem querer, distancia-se mesmo.
Resta-me desejar ao Presidente que não confie no Dr. Fernando Lima para estas andanças. Um bom spin  é discreto, fantasmagórico e indetectável. Nos tempos que correm em que as redes, os blogues e as televisões concorrem, a propaganda não é um slogan: é um sussurro ao qual se segue, claro, o barulho.

Qual dos Ministros é mais deficitário no uso dos neurónios?

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