quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A Covilhã precisa de uma sustentabilidade económica que vá alem do sector dos serviços. A construção civil está parada. A desertificação cresce. O ensino superior está em estagnação. O turismo precisa de uma abordagem mais ambiciosa . Não se compadece com birras . Houve uma altura em que receei que surgissem mais entidades de turismo do que turistas. Agora,a decisão fica em Coimbra. Ora suspeito, que na CCDR sabem menos sobre a Covilhã do que Lisboa. Vale a pena ver esta rota de museus da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro: não há referência a um espaço museológico na Covilhã-Cidade. Nem o Museu dos Lanífícios já premiado várias vezes. Há referência à capela de Santo Cristo do Teixoso, ao Museu Judaico de Belmonte e ao Museu de Arte Sacra do Fundão. Ora estas últimas são referências correctas e ainda bem que são feitas. As omissões é que não são de cinco estrelas.
Diagnóstico social da Covilhã: a crise não dorme. Apesar de estranhar as ausência de algumas entidades no diagnóstico social da Covilhã- sindicatos, associações patronais, Centro de Emprego, UBI não são citados na notícia do Jornal do Fundão sobre o diagnóstico social da Covilhã- sente-se que não há espaço para optimismos: pobreza, desemprego, baixa qualificação. Acrescentaria que, no essencial, estas matérias não são referidas nos debates intra e inter -partidários sobre escolha de candidatos. Numa carta que escrevi perguntei pelo debate de ideias. Em abono da verdade, também Francisco Pimentel tem aludido a estas questões. De resto é o silêncio.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Em Portugal começou a florir um discurso contra a pieguice que sonha com um português liberal, empreendedor e musculado que , nas conversas de esquina, manda impropérios e compara o Estado Social à sopa dos pobres. Espero que os que assim falam contra as pieguices mostrem o seu curriculum antes de se darem ares de matador. Para que não haja suspeitas de favor estatal ou partidário ou de arrivismo protegido por compadrio. Espero que não considerem nem a cultura nem o Ensino Público nem o Serviço Nacional de Saúde uma pieguice.
O Mariacci começou por ser uma personagem lendário de um México violento .revolucionário. Nos filmes de Roberto Rodriguez tornou-metáfora, talvez abusiva, do macho latino silencioso, de olhar matador, rápido na pistola e firme nas decisões. Era a versão hispânica dos personagens de Clint Eastwood e serviu de imaginário a alguns liberais que olham para a sociedade como uma espécie de última fronteira do Oeste Selvagem.
Espero que esta forma de Mariacci luso não esconda um arrivista gelatinoso. Há matadores que só são ferozes quando estão respaldados por uma entidade externa, um xerife de outra cidade.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
As redes sociais
Os indignados e alternativos têm sido motor de novas formas de comunicação politica. O Occupy Wal Street montou a sua própria forma de comunicar.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Uma viagem pessoal a Woody Allen e a Paris
Quando cheguei a Paris,já pouco restava dos meus imaginários transformados em turismo. Vou lendo o Camus e o Vian, algum Marlaux. Gosto de ouvir Sidney Bechet, Brel e Bécaud. Também gosto de Débussy, Ravel e Satie. Os impressionistas e os cubistas,bem como algumas vanguardas desses anos fazem parte dos meus quadros favoritos. Porém, a tal magia parisiense nunca me tocou exactamente por ser apresentado como uma espécie de museu cruzado com postal turístico. Como se não bastasse isso, sou já da mesma geração daqueles franceses que tinham por referência a América: os esquerdistas e anarquistas seduzidos pelo jazz, pela pop-arte e pelo cinema negro. Os rapazes da Nouvelle Vague. Até a Dolce Vitta de Fellini, um italiano perfeito, um filme maior, prestava uma homenagem indireta a uma certa americanização da Europa. Uma boa parte do cinema europeu nunca fugiu da América.
Houve escritores que me fizeram visitar Paris de entre as duas guerras. Eram todos americanos e nenhum francês. De entre eles, destacou-se Hamingway. O velho não está na moda e tem livros sobrevalorizados, esquecidos e menores. Porém, não há leitor com gosto que resista a alguns contos, ao seu primeiro romance ( The Sun Also Rises- Fiesta ) e a um dos seus últimos: A Movieble Feast, traduzido entre nós como Paris é uma festa. Nos contos, Hem ombreia com a melhor tradição clássica americana. Quanto aos dois textos maiores são um retrato belíssimo de como uma geração de emigrantes viu Paris. São exemplares e ombreiam com Fitzgerald, este mais famoso e menos castigado pelo tempo e pelas modas. Movieble Feast tem uma escrita enxuta,elegante e conversas fantasticas com Ezra Pound, Gertrude Steim, Fitzgerald e Silvia Plat. Vem tudo isto a propósito, porque ontem tive finalmente tempo e vontade de ver "Meia Noite em Paris". Sendo admirador de algus filmes de Woody Allen , era natural que tivesse feito isto antes. Porem, tinha medo que Woody Allen se perdesse numa imagem nostálgica da boémia da Rive Gauche.
Ora o velho judeu é rijo e autocrítico como só um judeu pode ser em relação aos seus próprios afectos. De acordo com os estereótipos, há três tipos de judeus: os que deixam crescer longas barbas, emigram do Leste, são ortodoxos, fanáticos e anti-árabes; os judeus de anéis nos dedos e nariz adunco que conspiram pela dominação no mundo; os judeus do Kibutz herdeiros do socialismo sionista que também acreditam no Povo Eleito. Tudo isto é de um reducionismo pobre e ocioso mas, como todos os estereótipos, são auto-confirmativos, logo é inutil discuti-los. Há mais dois tipos de judeus: os que não se parecem com judeus e raramente se lembram que o são - donde é logo discutível que o sejam. E um um útimo tipo: o judeu crítico, desenraizado e cosmopolita que ri dos seus próprios afectos e tradições. Woody Allen pertence a este último tipo. Já o vimos caricaturar rabis, circuncisões, rituais de casamento e comida Kosher com uma mordacidade que só um judeu teria.
Porém,Woody Allen não se fica por Brooklin. Allen é perito em desconstruir tudo o que gosta: o amor, o teatro, o cinema de Bergman, Sakespeare, Tchecov, Paris, a intelectualidade nova-iorquina e até Deus, a moral e a Arte. Ele gosta dessas coisas, reserva-lhes uma certa dose de ternura ocasional mas ao mesmo tempo precisa de distanciar-se delas com uma mordacidade dolorosa.
"Maiea Noite em Paris" corria o risco sério de se tornar um pastelão para turistas Porém, ele sabe do métier. A reconstrução do imaginário da geração perdida é tão eficaz como a desconstrução. Ora estamos à beira de uma nostalgia kitsch, oraresvalamos para o nonsense e para o ridículo. Scott Fitzgerald e Zelda são exactamente como as fotos de Scott Fizgerald e Zelda e Hemingway declama, com cara de pau, trechos inteiros de passagens de textos seus sobre a sua concepção de literatura, a importância das touradas e a virilidade. Buñuel é chapado ele próprio e Dali irrita. Algumas cenas são inspiradas no Movieble Feast de Hemingway. . Woody Allen explora a nostalgia do imaginário, adere a essa nostalgia, e depois diz através de um personagem : quem acredita naquilo é um bando de pilulas que sofre de tumor cerebral. Depois, introduz um final redentor mas propositadamente banal e conscientemente ambíguo: Paris é óptimo para se e ser jovem e escrever romances e viver numas água-furtadas com a dona de um alfarrabista que gosta de Cole Porter. Pode ser irritante mas é feito com bom gosto e talento. Não sei se Woody Allen é um grande realizador (embora Annie Hall, Manhattan, Crimes e Escapadelas possam indiciar que tenha sido ) mas é um entertainer fabuloso..
Já agora a 1º foto é da promoção do filme. O toque de impressionismo vangoghiano sobre os céus de Paris é tão interessante quanto oportunista. A segunda foto remonta à primeira leitura que fiz de Hemingway: "The Sun Also Rises" (Fiesta) para a colecção de Bolso Livros RTP. As duas senhoras são Gertrude Stein e Alice Tolkien e a última imagem é de Scoot Futzgerald e Hemingway no filme. Por baixo: Picasso e Hemingay em Paris. Que cromos!




