Eis que aqui surge um novo Blogue. A primeira mensagem é sobre a minha cidade. Trata-se de uma carta aberta a Luís Miguel Nascimento que sairá amanhã no Jornal do Fundão e que aqui transcrevo.
Prezado Presidente da Comissão Política do PS
Meu Caro Amigo
Permite-me manter este trato pois não é meu hábito confundir planos pessoais e políticos nem guardar amarguras de fel. Como uma vez me disseste “isto é apenas política”.
O PS da Covilhã assemelha-se hoje a uma espécie de Titanic em que ninguém sabe que pode embater num iceberg, e como tal, afundar-se. A tripulação e o capitão seguem em frente alheios à catástrofe, sem consultarem o radar, a bússola e o astrolábio ou sejam o bom senso, a capacidade de julgamento e a frieza estratégica que caracterizam os líderes políticos. Vinte anos depois, o PS está na mesma linha de partida em que estava quando perdeu o poder: dividido, assolado por guerras intestinas sem objectivo à vista. Só te escrevo porque ainda é tempo de arrepiar caminho antes de bater no Iceberg. Mas terás que fazer parte da solução para minimizar estragos.
Com a franqueza que geralmente caracteriza as nossas velhas relações, permite-me que te diga: “Cometeste um erro”.
Cometer erros não é um monopólio teu. Não há no PS da Covilhã quem possa, em consciência, dizer que acertou sempre. O problema é que cometeste erros capitais.
O passado
Importa regressar ao início.
Quando se gerou o processo que originou esta comissão política, o PS tinha condições objectivas para regressar à Câmara.
Em primeiro lugar, sabia-se que se verificaria uma mudança de liderança na autarquia.
Em segundo lugar, o número de descontentes da actual maioria camarária cresceria alargando a possibilidade de atracção de quadros no centro político entre as próprias elites que apoiaram a actual maioria.
Em terceiro lugar, a diminuição de transferências financeiras, as dificuldades de financiamento e a diminuição da execução de obras iriam mostrar debilidades na actual maioria. Não pensei na altura que viesse a ter tanta razão.
Finalmente, a própria disputa interna do PSD, na ausência de um delfim forte, favorecia quem se mantivesse unido na oposição.
O que se passou
O primeiro grave erro que cometeste consistiu no lançamento de um convite com uma antecedência sem precedentes, para encabeçar a lista do PS. Pior, esse erro foi agravado pelo facto de o convite, não sendo uma indigitação, ter sido apresentado como uma espécie de facto consumado numa manobra pouco hábil de ocupação de terreno.
Não discuto os méritos da pessoa convidada. Discuto é a forma como isso foi feito.
Ao fazer esse convite, geraste na opinião pública uma situação de exposição extrema tanto mais grave quanto o percurso do teu candidato conhecesse dissabores e exposição mediática negativa.
Segundo, esqueceste-te que um convite mesmo aceite é apenas um convite . Pode ser sempre confrontado com novos convites pois não tem uma deliberação de aceitação. Isto é tanto mais verdade, quanto há eleições para uma nova Comissão Politica antes das eleições autárquicas. Mesmo depois de dada a resposta ao convite será sempre isso mesmo: uma resposta a um convite.
Finalmente, não previste o protagonismo extremo que a pessoa convidada iria ter nomeadamente no processo de escolha do Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Não discuto os méritos da sua candidatura nem da sua equipa. Não conheço a Santa Casa nem os seus problemas em pormenor. Porém, objectivamente, deparamo-nos com esta situação:
De um lado, um Provedor eleito, afecto ao PS, propunha uma diminuição de direitos e regalias aos trabalhadores da Santa Casa. Do outro lado, o Provedor que lhe sucedeu é exposto nos jornais como uma figura que tudo faz para assegurar os subsídios dos trabalhadores em atraso. Não conheço o Sr. Pedro Paiva suficientemente para aquilatar do que se passa. Reportando-me aos jornais, esta é a imagem que ressalta. Não é completamente surpresa. Para os mais atentos, torna-se óbvio que o aconselhamento económico do teu candidato evidencia um viés onde não há lugar para o humanismo e tudo se resume, num economês pobre e voluntarista a uma questão de” reajustamentos”.
De um lado, um Provedor eleito demitia-se do cargo quinze dias depois. Do outro, a imagem pública que resulta é a de uma pessoa disponível para enfrentar um mandato longo e difícil.
De um lado, surgiam ataques que sugeriam a existência de assessores afectos à mesma pessoa que teriam feito um estudo por uma verba interessante. Não me pronuncio sobre os méritos do estudo nem sobre a verba alegadamente paga nem quero saber quem são os assessores. Como não faço processos de intenção, limito-me a recordar o lugar-comum sobre a mulher de César.
Ou seja, confirmava-se a minha previsão: uma candidatura prematura, ou um convite prematuro, obrigaria a uma exposição demasiado permanente da qual podiam resultar dissabores graves.
Finalmente, numa inexplicável fuga para à frente, decidiste fazer um comunicado de apoio à pessoa (na sua qualidade de Provedor), o que não eras obrigado fazer. Era a cereja degradada no cimo de um bolo mal cozido, prematuramente saído do forno, A solidariedade fica bem. Os termos, os modos e os lugares podem transformá-la em imprudência.
Em suma, assumiste o papel de capitão de uma parte da tripulação, o que não é aconselhável para um comandante.
Adivinho (é um segredo de Polichinelo) que a breve trecho vais anunciar a aceitação de um certo convite. E ate te vais sentir bem alguns dias, tentando convencer-te a ti próprio que fizeste o que era certo. Erro teu, má fortuna, delírio ardente. Já imagino a cena: é com grande alegria que anuncio que o senhor fulano após um ano e seis meses de ponderação concluiu que aceitava ser candidato a Presidente. Com toda a boa fé, sem ironia, acho que não o deves fazer. É previsível? É. É uma boa “jogada” de curto prazo? Até pode ser. Mas será ganhadora? E o preço? Será que os militantes ou a sua maioria significativa apoiarão um risco que se afigura assente na teimosia e não na ponderação prudente? E a Covilhã? E o debate de ideias?
Os perigos e as oportunidades.
Quanto aos perigos só quem ande cego e perdido nas pequenas intrigas palacianas do PS não repara que, aproveitando o imenso poder acumulado, o PSD se prepara cuidadosamente para as eleições.
Há sinais claros de reformulação de uma nova classe política no PSD incluindo independentes Quem ler os jornais verá que o processo de alinhamento para as candidaturas está a desenvolver-se notando-se algum mérito e, sobretudo, discrição nas pequenas coincidências que se vão adivinhando. Mais, há sensibilidade para as novas relações de poder e dinâmicas sociais que se desenvolvem no Concelho. Com todas as insanáveis divergências que, enquanto socialista, tenho em relação ao PSD, neste momento e circunstâncias, o PSD partiria a frente. Felizmente, não é ainda o momento e as circunstâncias irão mudar.
Quanto às oportunidades, não é preciso lembrar-te que o PS dispõe de um capital de personalidades que permitem uma escolha serena, ponderada e racional.
Alguém, no seu juízo perfeito, pode ignorar a consistência e a perspicácia de autarcas cujo sacrifício e empenho em sucessivas eleições têm sido a imagem do Partido, lutando, vencendo ou convencendo em difíceis pugnas eleitorais ou em Juntas de Freguesia urbanas e rurais de grande dimensão? É possível impugnar à partida o seu contributo, o seu conselho ao menos?
Alguém, no seu perfeito juízo, pode ignorar uma lista de vereadores (não apenas os eleitos) responsável por um programa que foi acolhido como um dos melhores diagnósticos do Concelho jamais feito?
Mais ainda: alguém ignora que as circunstâncias eleitorais permitiram que alguns independentes de grande qualidade e experiência comprovada na gestão se encontram disponíveis para a actividade cívica, pois deixaram os lugares que ocupavam à frente de instituições públicas de grande exigência?
Desde já digo que não consultei nenhuma das pessoas aqui aludidas pelo que me fico por uma alusão da minha exclusiva responsabilidade. Todavia sempre acrescento quer o que referi é um segredo de Polichinelo que só não é visível par os piores cegos: os que não querem ver.
Não escondo o que penso:
O candidato do PS terá que ter experiência de gestão financeira, enorme capital relacional político, sensibilidade para as freguesias e para o associativismo.
Mas também terá que ter uma enorme sensibilidade para as novas dinâmicas que a Covilhã conhece. As ameaças estão bem diagnosticadas. As oportunidades estão do lado da requalificação de quadros e de uma aguda percepção de novas dinâmicas onde se incluem a UBI, a Faculdade de Ciências da Saúde, o Centro Hospitalar, o UBI Medical, o UBI Tecnical, as novas tecnologias, a recuperação do espaço público e a recuperação urbana, o Data Center , o desenvolvimento turístico inteligente e a competitividade fiscal para a atracção de recursos humanos e indústrias.
Se sei quem preenche essas condições? Sei. Se e uma única pessoa? Não, claro que não. Há varias pessoas com características diferentes que poderão apresentar essa sensibilidade. Ora, se eu sei, como te considero igualmente atento, também sabes.
Em face destes argumentos, suponho que a saída mais razoável exige algumas premissas:
Em primeiro lugar, é preciso dar voz aos militantes para que estes se pronunciem. Sem agressões mútuas nem hipocrisias.
Em segundo lugar, é preciso abandonar a ideia peregrina de afunilar em torno de um candidato e, serenamente, admitir outras hipóteses sem preconceitos.
Finalmente, importa que as próximas eleições internas sejam o movimento de clarificação. A questão vai ser simples: o PS quer conquistar a Câmara ou vai envelhecer na oposição?
Acredita, que tal como comecei, penso que “isto é apenas política” e como tal espero uma disputa leal, franca e sem fel, caso persistas no que considero serem os teus erros.
Aceita os cumprimentos sinceros
Do João Carlos Ferreira Correia
Pela sua dimensão a carta sai em versão reduzida na edição em papel e pode ser vista
na integra aqui Modernices.
Quanto ao PS, o tempo dos partidos monoliticamente fechados terminou. Há coisas que têm que ser ditas na praça pública.