quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Parado na estação deserta....
As estações podem ser o lugar da mais trágica solidão, penso eu. Ali se encontram tristes a sonhar com o sonho que não se realizou: o Sebastião que não veio, o livro que não escreveram, o mestrado que nunca mais terminava, o partido que não cresceu, a pequenez sempre a encolher, o comboio que nunca mais parte. Pra ali estão à espera da boleia ou da gratidão pela encomenda.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
As aventuras do Governo no Reino das redes sociais.
O 1º Ministro entrou nas redes sociais. A página de Facebook chama-se O meu movimento.Aqui há uns tempos assisti a algumas observações empíricas sobre páginas sociais promovidas por organizações partidárias de juventude e organizações expontâneas de causas e movimentos cívicos. As primeiras caracterizavam-se pelo deserto de ideias e pela celebração de uma ritual que um saudoso 1º Ministro ( não, não era o meu conterrâneo José Sócrates) chamava de "Vivas à Maria e ao Manel." As segundas tinham ideias mas estavam eivadas de um derrotismo cínico que se podia categorizar, igualmente de modo jocoso: "Abaixo qualquer Maria e qualquer Manel". A celebração e a indignação são itens políticos. Porém, serão úteis? Entre a propaganda e o derrotismo há espaço para outra coisa? Duvido do estilo da página Facebook do 1º Ministro . O simples facto de se auto-intitular de governamental ( há muitas formas de dizer o mesmo) e se colocar numa postura de informalidade pouco convincente revela que a classe politica não sabe usar a difícil arte de trabalhar nas redes sociais. Eu também não disponho dessa arte mas recomendo mais criatividade. O Facebook é um ambiente ingrato para a politica institucional.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Spin Doctors: nas sombras da política
Como investigador de Comunicação Politica, o fenómeno do spin doctoring interessa-me. Os spin doctors são assessores de comunicação geralmente ocultos que geram nos media informação favorável para as entidades com que trabalham e transmitem informação que prejudica os adversários dessas identidades. Estrela Serrano, Professora da ESCS dedica algum tempo à investigação deste interessante fenómeno e diz que ele se pode induzir a partir de notícias não atribuídas. Se as fontes não se conhecem, então quem gerou a notícia? Descontada a hipótese de ela resultar de uma aprofundada investigação jornalística ( o que, a ter-se verificado, se notaria na existência de fontes identificáveis), descontada também a hipótese de fenómenos paranormais de propagação telepática da informação,sobram eles os spins, trabalhando na sombra propaganda facts políticos.
Contrariamente ao que pensa um distinto investigador meu antigo aluno, que dá pelo nome de Helder Prior e, que, para bom nome da UBI, reflecte com muito acerto sobre estes temas, não acredito que o spin se insira no modelo de propaganda. O modelo de propaganda, identificado nos anos 30, implica a existência de arautos bem conhecidos,o matraqueamento macisso das massas com slogans uniformes e claramente intencionais. Um investigador escocês chamado Brian McNair clama que nós hoje vivemos no modelo comunicacional do caos: as mensagens dos grandes media são descodificadas nas redes sociais, há uma multiplicidade de plataformas é infinita (desde os jornais aos telemóveis e aos Ipads), a televisão por cabo espalha-se pelo mundo. Na Tunísia, o governo ditatorial censurou a internet dentro das suas fronteiras.Porém,os jornalistas da AlJazzer iam buscar os vídeos das manifestações feitos por "amadores" usando telemóveis e passavam-nos no interior da Tunísia, aonde o canal chegava via cabo a 50 % dos lares daquele país. A mensagem da oposição saía pela porta e entrava pela janela. Dizem que a Câmara da Covilhã exerce um controlo severo sobre a imprensa e a rádio da Covilhã. Porém, este controlo é curtocicuitado sistematicamente por blogues como este ou o Carpinteira (que até se referiu a mim como um poder fáctico, que obviamente agradeço,mas é manifestamente exagerado) ou por jornais do concelho vizinho. Por isso, surgem novas profissões: em lugar da boa velha propaganda,aparecem profissões como os spins, gestores de redes sociais e outros. Ou seja, a propaganda e a vontade controlo existem mas já não se desenvolvem num cenário unilateral de propaganda de um único centro de poder: é o universo dos boatos, da contra-informação, das máscaras, dos silêncios geridos e das censuras ocultas. Foi por isso ( e não por egocentrismo) que criei sempre blogues,personalizados, individuais e com fotografia. Foi um risco calculado de exposição mas também de auto-responsabilização.
Um caso óbvio de spin é a recente propagação de notícias que dão conta do distanciamento de Cavaco em relação a Passos Coelho e Vitor Gaspar. Espalhados pelo Público e pelo Expresso encontramos os lamentos lancinantes das pessoas associadas a Cavaco Silva contra a euforia ultra-liberal de Coelho, de Vitor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.
Este impeto social democrata do Presidente da República tem três significados, na minha modesta opinião:
a) O Presidente quer desviar as atenções da sua mensagem desastrada sobre as dificuldades que passa com as suas modestas reformas.
b) O Presidente quer ganhar espaço de manobra politica para se distanciar dos duros do PSD, aparecendo como moderador e moderado.
c) Porém, a estratégia comunicacional também é uma estratégia de poder. O Presidente da República não quer ser a rainha da Inglaterra, e quer envolver mais o PS e a UGT neste círculo. Cavaco Silva teve uma estratégia clara: correr com Sócrates, eleger o PSD e presidir a uma maioria politicamente favorável sem nunca deixar de lado a existência de pontes com o PS enquanto almofada de garantia. Se Gaspar e Coelho falharem, como as decisões europeias cada vez mais indiciam, as cadeiras do poder podem transformar-se em cadeiras eléctricas. A comunicação política não é só marketing e quando alguém manda dizer que se distanciou de alguém, mesmo sem querer, distancia-se mesmo.
Resta-me desejar ao Presidente que não confie no Dr. Fernando Lima para estas andanças. Um bom spin é discreto, fantasmagórico e indetectável. Nos tempos que correm em que as redes, os blogues e as televisões concorrem, a propaganda não é um slogan: é um sussurro ao qual se segue, claro, o barulho.
Contrariamente ao que pensa um distinto investigador meu antigo aluno, que dá pelo nome de Helder Prior e, que, para bom nome da UBI, reflecte com muito acerto sobre estes temas, não acredito que o spin se insira no modelo de propaganda. O modelo de propaganda, identificado nos anos 30, implica a existência de arautos bem conhecidos,o matraqueamento macisso das massas com slogans uniformes e claramente intencionais. Um investigador escocês chamado Brian McNair clama que nós hoje vivemos no modelo comunicacional do caos: as mensagens dos grandes media são descodificadas nas redes sociais, há uma multiplicidade de plataformas é infinita (desde os jornais aos telemóveis e aos Ipads), a televisão por cabo espalha-se pelo mundo. Na Tunísia, o governo ditatorial censurou a internet dentro das suas fronteiras.Porém,os jornalistas da AlJazzer iam buscar os vídeos das manifestações feitos por "amadores" usando telemóveis e passavam-nos no interior da Tunísia, aonde o canal chegava via cabo a 50 % dos lares daquele país. A mensagem da oposição saía pela porta e entrava pela janela. Dizem que a Câmara da Covilhã exerce um controlo severo sobre a imprensa e a rádio da Covilhã. Porém, este controlo é curtocicuitado sistematicamente por blogues como este ou o Carpinteira (que até se referiu a mim como um poder fáctico, que obviamente agradeço,mas é manifestamente exagerado) ou por jornais do concelho vizinho. Por isso, surgem novas profissões: em lugar da boa velha propaganda,aparecem profissões como os spins, gestores de redes sociais e outros. Ou seja, a propaganda e a vontade controlo existem mas já não se desenvolvem num cenário unilateral de propaganda de um único centro de poder: é o universo dos boatos, da contra-informação, das máscaras, dos silêncios geridos e das censuras ocultas. Foi por isso ( e não por egocentrismo) que criei sempre blogues,personalizados, individuais e com fotografia. Foi um risco calculado de exposição mas também de auto-responsabilização.
Um caso óbvio de spin é a recente propagação de notícias que dão conta do distanciamento de Cavaco em relação a Passos Coelho e Vitor Gaspar. Espalhados pelo Público e pelo Expresso encontramos os lamentos lancinantes das pessoas associadas a Cavaco Silva contra a euforia ultra-liberal de Coelho, de Vitor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.
Este impeto social democrata do Presidente da República tem três significados, na minha modesta opinião:
a) O Presidente quer desviar as atenções da sua mensagem desastrada sobre as dificuldades que passa com as suas modestas reformas.
b) O Presidente quer ganhar espaço de manobra politica para se distanciar dos duros do PSD, aparecendo como moderador e moderado.
c) Porém, a estratégia comunicacional também é uma estratégia de poder. O Presidente da República não quer ser a rainha da Inglaterra, e quer envolver mais o PS e a UGT neste círculo. Cavaco Silva teve uma estratégia clara: correr com Sócrates, eleger o PSD e presidir a uma maioria politicamente favorável sem nunca deixar de lado a existência de pontes com o PS enquanto almofada de garantia. Se Gaspar e Coelho falharem, como as decisões europeias cada vez mais indiciam, as cadeiras do poder podem transformar-se em cadeiras eléctricas. A comunicação política não é só marketing e quando alguém manda dizer que se distanciou de alguém, mesmo sem querer, distancia-se mesmo.
Resta-me desejar ao Presidente que não confie no Dr. Fernando Lima para estas andanças. Um bom spin é discreto, fantasmagórico e indetectável. Nos tempos que correm em que as redes, os blogues e as televisões concorrem, a propaganda não é um slogan: é um sussurro ao qual se segue, claro, o barulho.
sábado, 28 de janeiro de 2012
A História
A história não é feita de determinismos mas as conjunturas têm alguma dose de previsibilidade. Leiam-se neste link alguns cenários previsíveis para a Europa.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Considerações sobre o tempo: Pedro e o Lobo, a esquerda e a comunicação política.
Quem conhece a história popular sobre Pedro e o Lobo lembra-se da mensagem. Não se deve ser alarmista porque se desvaloriza o peso dos avisos. Um semáforo vermelho pode acender antes do tempo. Um dia, percebi que os partidos de extrema esquerda são como semáforos vermelhos: anunciam o perigo muito antes de ele ocorrer. Pode ser útil mas há o risco de os condutores deixarem de confiar nos sinais luminosos.
O PCP e os movimentos e partidos congregados no BE anunciaram desde os anos 70 e 80 " a perda de direitos sociais" e o "ataque às conquistas de Abril". Na sua retórica específica, anunciavam o fim do regime nascido dos compromissos efectuados no fim do PREC, plasmados na Constituição de 1976.
Um dia, o lobo chegou e entrou mesmo no redil. A população estava cansada de ser avisada pelo Pedro e já estava preparada para aceitar a chegada do lobo, desde que fosse uma chegada "negociada". Os automobilistas cansaram-se dos sinais vermelhos avariados e arriscaram entrar na estrada a destempo: se o sinal não é fiável ainda podemos avançar. Nessa altura, PCP e BE começaram a ter alguma espécie de razão na análise mas parece que ninguém lhes liga. Afinal, a história do Pedro e do Lobo é uma aula de Comunicação Politica.
O PCP e os movimentos e partidos congregados no BE anunciaram desde os anos 70 e 80 " a perda de direitos sociais" e o "ataque às conquistas de Abril". Na sua retórica específica, anunciavam o fim do regime nascido dos compromissos efectuados no fim do PREC, plasmados na Constituição de 1976.
Um dia, o lobo chegou e entrou mesmo no redil. A população estava cansada de ser avisada pelo Pedro e já estava preparada para aceitar a chegada do lobo, desde que fosse uma chegada "negociada". Os automobilistas cansaram-se dos sinais vermelhos avariados e arriscaram entrar na estrada a destempo: se o sinal não é fiável ainda podemos avançar. Nessa altura, PCP e BE começaram a ter alguma espécie de razão na análise mas parece que ninguém lhes liga. Afinal, a história do Pedro e do Lobo é uma aula de Comunicação Politica.