A CADA UM O SEU DA CIDADE, NUMA CIDADE PARA TODOS
A liberdade é um processo complexo. Os dias das cidades são sobre a liberdade e a cidadania Porquê associar a celebração da elevação de uma vila à cidade a liberdade? Um amigo meu Brasileiro disse-me que no seu estado, os dias da cidade são dias de emancipação, porque ser cidade era o reconhecimento de uma forma de maioridade, a criação de ordenamento de território mais complexos, cosmopolitas e vigorosos.
No caso da cidade da Covilhã, tem conhecido altos e baixos, momentos de afirmação empresarial e dinâmica económica e momentos de letargia e decadência do espaço público. Como fenómeno da modernidade, as cidades reflectem as suas evoluções e contradições. A Covilhã tem estado mais ou menos em sintonia com a modernidade
A Covilhã conheceu o ciclo dos têxteis, aonde o empreendedorismo significava capacidade de iniciativa: ideias e dedicação ao trabalho que mudavam o mundo e criavam mobilidade social. Aqui há dias visitei por mero caso, um pequeno espaço criativo embrionário numa antiga firma onde vi os teares fabricados pelo Lucas, pelo Teles André, as bobines do Correia entre outros sinais da nossa capacidade de inovar em processos e produtos adjacentes aos tecidos. 400 fábricas espalhavam alegria, emprego e desigualdade social pelas ruas. sim, havia desigualdade social A Revolução Industrial não foi um processo altruísta de produção de bens ao serviço da humanidade: foi um processo económico de expansão de mercados em que houve exploração, desigualdade, invenção, génio, iniciativa, desenvolvimento. E de tudo, tivemos, pois. Á época final dos têxteis é recordada na Covilhã pelo Montalto abandonado, por um Pelourinho apagado e por uma ausência de esperança.
Depois, veio ciclo dos fundos comunitários: expansão, crédito, terciarização, novas unidades de saúde e educação e, claro, muita construção civil. Infelizmente, esse processo não foi sempre acompanhado por um aumento substancial da qualidade política, pelo engenho sábio do diálogo, pela implantação de estruturas sólidas da sociedade civil. Esse era o pecado original que germinava no seio desse ciclo de desenvolvimento. Além das maiorias absolutas, viu-se, sobretudo, o absolutismo das maiorias. No fim, sem surpresa excessiva, descortina-se no meio do desenvolvimento, a pressa de crescer sem regra, o despreza pela cultura, o uso do subsídio como tática de centralização politica e domesticação de clientelas. Neste caldo de tensões contraditórias (nem todas maléficas, mas cada vez mais maléficas à medida que se prolongava excessivamente o artificialismo do crescimento) geravam-se negócios menos positivos para a cidade como o Parque C ou as águas, as teimosias caprichosas e a sensação de um mundo que decaía ao ritmo da crise, à medida que o crédito apertava, a procura definhava e os serviços públicos eram dizimados.
Actualmente, era inevitável uma correção de trajetória. Os dinheiros da União do período entre 2014 e 2020 não estão destinados prioritariamente a infraestruturas. Destinam-se antes à imaginação, à memória e à criatividade cultural. Não é a época do betão, é a época da criatividade, da divulgação turística e patrimonial, da promoção das marcas regionais, do desenvolvimento da gastronomia, da aposta na ciência e da colaboração com a UBI (uma das falências maiores da anterior Câmara). Dois momentos esperavam o novo Executivo. Por um lado, cortar célere no despesismo movido a crédito sem crescimento económico sustentado. O segundo desafio era começar a dar os primeiros passos no sentido de lançar as bases de clusters de economia criativa: com a lã, o design, a moda, a gastronomia, as novas tecnologias. O primeiro esforço, combater o despesismo não assente em crescimento económico nem planeamento estratégico, traduziu-se simbolicamente na revelação dos dados relativos à situação económica e financeira da autarquia. Pediram-se os dados, contratou-se uma empresa. Independentemente da forma mais ou menos eficaz ou mais ou menos protocolar que envolveu a divulgação dos mesmos dados, independentemente da utilização da classificação das rubricas de acordo com critérios de gestão ou do amadorismo que parece assomar com alguma resiliência na gestão da comunicação autárquica, os números e os dados, sobre qualquer perspectiva que não meramente tecnocrática ou estritamente demagógica, não retratam com favor a agonia do ciclo politico anterior. Porque um ciclo económico é também um ciclo político: são homens, são decisores, são avaliação de interesses. E defender teimosamente o estado das coisas era cegueira. Como é possível que, ciosos da sua posteridade, alguns chamem falsários aos que lhes sucederam? A intensidade da crítica é um barómetro que não engana: reinou uma perspectiva egoísta que precipitou a cidade para uma lógica de eu ou caos que nunca poderia terminar de forma pacífica mas que se espera que venha a evoluir para outro nível de debate. Houve despesismo, está provado. Houve maus negócios, está provado.
Também no que respeita à afirmação de uma dinâmica criativa da sociedade civil se avolumam sinais positivos que, por embrionarem na sociedade civil, já tinham dado sinais da sua existência. Porém, era preciso surgir sensibilidade para esta nova realidade ainda oscilante. O sector da cultura, não sendo um diamante que refulge até ao zénite do horizonte, transformou-se numa promessa curiosa e merecedora de uma aposta ainda mais firme. Se houver confiança e altruísmo entre os agentes culturais, e a Câmara não quiser instaurar nenhum modelo já experimentado de castelo feudal mas preferir o modelo bem mais republicano da praça como lugar de festa, como espaço de debate; se o excesso de zelo controlador não asfixiar a criatividade que desponta e se todos forem chamados a colaborar, pode ser que os sinais tímidos de viragem se traduzam numa recuperação do centro histórico com dignidade, numa judiaria que atraia os imaginários dos nossos irmãos judeus e israelitas, se a história não for um empecilho mas uma oportunidade, se as novas tecnologias e o dinamismo empresarial forem coordenados, de forma pragmática e dialogante, por quem sabe, é um novo percurso que deve ser percorrido. Até porque não temos outra hipótese.
Mas há um terceiro desafio: a qualidade da democracia. Os processos de terciarização, de destruição das sociabilidades tradicionais e de crise são acompanhados por um declínio do espaço publico. Ora o desenvolvimento económico, nas democracias desenvolvidas, casa bem com uma cidadania saudável. Como defensor do Orçamento Participativo, tenho defendido que se de ir um «pouco muito» além de onde se foi e entendo também que os processos que conduzem à sua implementação devem ser acompanhados por uma associação que o ponha em prática, para quer não fiquem ancorados numa personalidade individual que, por mais capaz que seja, nunca deixara de originar um paradoxo: uma liderança individual num processo participativo. Tudo o que foi feito não se deve deixar morrer mas convergência de esforços e a contenção de lógicas cívicas partidárias ou independentes mas estruturadas em movimento deve ser exigida para a entrada em cena do senhor Cidadão Comum.
No caso da cidade da Covilhã, tem conhecido altos e baixos, momentos de afirmação empresarial e dinâmica económica e momentos de letargia e decadência do espaço público. Como fenómeno da modernidade, as cidades reflectem as suas evoluções e contradições. A Covilhã tem estado mais ou menos em sintonia com a modernidade
A Covilhã conheceu o ciclo dos têxteis, aonde o empreendedorismo significava capacidade de iniciativa: ideias e dedicação ao trabalho que mudavam o mundo e criavam mobilidade social. Aqui há dias visitei por mero caso, um pequeno espaço criativo embrionário numa antiga firma onde vi os teares fabricados pelo Lucas, pelo Teles André, as bobines do Correia entre outros sinais da nossa capacidade de inovar em processos e produtos adjacentes aos tecidos. 400 fábricas espalhavam alegria, emprego e desigualdade social pelas ruas. sim, havia desigualdade social A Revolução Industrial não foi um processo altruísta de produção de bens ao serviço da humanidade: foi um processo económico de expansão de mercados em que houve exploração, desigualdade, invenção, génio, iniciativa, desenvolvimento. E de tudo, tivemos, pois. Á época final dos têxteis é recordada na Covilhã pelo Montalto abandonado, por um Pelourinho apagado e por uma ausência de esperança.
Depois, veio ciclo dos fundos comunitários: expansão, crédito, terciarização, novas unidades de saúde e educação e, claro, muita construção civil. Infelizmente, esse processo não foi sempre acompanhado por um aumento substancial da qualidade política, pelo engenho sábio do diálogo, pela implantação de estruturas sólidas da sociedade civil. Esse era o pecado original que germinava no seio desse ciclo de desenvolvimento. Além das maiorias absolutas, viu-se, sobretudo, o absolutismo das maiorias. No fim, sem surpresa excessiva, descortina-se no meio do desenvolvimento, a pressa de crescer sem regra, o despreza pela cultura, o uso do subsídio como tática de centralização politica e domesticação de clientelas. Neste caldo de tensões contraditórias (nem todas maléficas, mas cada vez mais maléficas à medida que se prolongava excessivamente o artificialismo do crescimento) geravam-se negócios menos positivos para a cidade como o Parque C ou as águas, as teimosias caprichosas e a sensação de um mundo que decaía ao ritmo da crise, à medida que o crédito apertava, a procura definhava e os serviços públicos eram dizimados.
Actualmente, era inevitável uma correção de trajetória. Os dinheiros da União do período entre 2014 e 2020 não estão destinados prioritariamente a infraestruturas. Destinam-se antes à imaginação, à memória e à criatividade cultural. Não é a época do betão, é a época da criatividade, da divulgação turística e patrimonial, da promoção das marcas regionais, do desenvolvimento da gastronomia, da aposta na ciência e da colaboração com a UBI (uma das falências maiores da anterior Câmara). Dois momentos esperavam o novo Executivo. Por um lado, cortar célere no despesismo movido a crédito sem crescimento económico sustentado. O segundo desafio era começar a dar os primeiros passos no sentido de lançar as bases de clusters de economia criativa: com a lã, o design, a moda, a gastronomia, as novas tecnologias. O primeiro esforço, combater o despesismo não assente em crescimento económico nem planeamento estratégico, traduziu-se simbolicamente na revelação dos dados relativos à situação económica e financeira da autarquia. Pediram-se os dados, contratou-se uma empresa. Independentemente da forma mais ou menos eficaz ou mais ou menos protocolar que envolveu a divulgação dos mesmos dados, independentemente da utilização da classificação das rubricas de acordo com critérios de gestão ou do amadorismo que parece assomar com alguma resiliência na gestão da comunicação autárquica, os números e os dados, sobre qualquer perspectiva que não meramente tecnocrática ou estritamente demagógica, não retratam com favor a agonia do ciclo politico anterior. Porque um ciclo económico é também um ciclo político: são homens, são decisores, são avaliação de interesses. E defender teimosamente o estado das coisas era cegueira. Como é possível que, ciosos da sua posteridade, alguns chamem falsários aos que lhes sucederam? A intensidade da crítica é um barómetro que não engana: reinou uma perspectiva egoísta que precipitou a cidade para uma lógica de eu ou caos que nunca poderia terminar de forma pacífica mas que se espera que venha a evoluir para outro nível de debate. Houve despesismo, está provado. Houve maus negócios, está provado.
Também no que respeita à afirmação de uma dinâmica criativa da sociedade civil se avolumam sinais positivos que, por embrionarem na sociedade civil, já tinham dado sinais da sua existência. Porém, era preciso surgir sensibilidade para esta nova realidade ainda oscilante. O sector da cultura, não sendo um diamante que refulge até ao zénite do horizonte, transformou-se numa promessa curiosa e merecedora de uma aposta ainda mais firme. Se houver confiança e altruísmo entre os agentes culturais, e a Câmara não quiser instaurar nenhum modelo já experimentado de castelo feudal mas preferir o modelo bem mais republicano da praça como lugar de festa, como espaço de debate; se o excesso de zelo controlador não asfixiar a criatividade que desponta e se todos forem chamados a colaborar, pode ser que os sinais tímidos de viragem se traduzam numa recuperação do centro histórico com dignidade, numa judiaria que atraia os imaginários dos nossos irmãos judeus e israelitas, se a história não for um empecilho mas uma oportunidade, se as novas tecnologias e o dinamismo empresarial forem coordenados, de forma pragmática e dialogante, por quem sabe, é um novo percurso que deve ser percorrido. Até porque não temos outra hipótese.
Mas há um terceiro desafio: a qualidade da democracia. Os processos de terciarização, de destruição das sociabilidades tradicionais e de crise são acompanhados por um declínio do espaço publico. Ora o desenvolvimento económico, nas democracias desenvolvidas, casa bem com uma cidadania saudável. Como defensor do Orçamento Participativo, tenho defendido que se de ir um «pouco muito» além de onde se foi e entendo também que os processos que conduzem à sua implementação devem ser acompanhados por uma associação que o ponha em prática, para quer não fiquem ancorados numa personalidade individual que, por mais capaz que seja, nunca deixara de originar um paradoxo: uma liderança individual num processo participativo. Tudo o que foi feito não se deve deixar morrer mas convergência de esforços e a contenção de lógicas cívicas partidárias ou independentes mas estruturadas em movimento deve ser exigida para a entrada em cena do senhor Cidadão Comum.
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